Friday, August 09, 2013

Há 152 anos.

 Aí que em 1861 (mil oitocentos e sessenta e um, vejam bem), Dostoiévski publicava o seguinte desabafo:
De fato, julguem: sobre o que escrever? Chegou, por exemplo, Ristori [atriz dramática italiana que esteve em Petersburgo em 1860] e vejam só - tudo quanto é folhetinista começa a rabiscar a mesma coisa em todos os folhetins, em todos os jornais e revistas: Ristori, Ristori, Ristori chegou, Ristori vai representar; ela atua em Kamma, e logo em seguida Kamma, Kamma, qualquer que seja o jornal que se abra sempre aparece Kamma; ela está em Maria Stuart, e no mesmo instante Stuart, Stuart, etc. Assim as novidades irrompem uma atrás da outra! E o mais lamentável é que eles de fato imaginam que se trata de novidades. A gente pega um jornal, não tem vontade de ler: em toda parte é a mesma coisa, o desânimo se apodera do senhor, que apenas concorda que é preciso ser muito ladino, esperto, ter as mãos e o pensamento saturados de rotina para dizer ainda que seja a mesma coisa sobre a mesma coisa, mas dando um jeito de evitar as mesmas palavras. E os infelizes reviram a sua inteligenciazinha e amaldiçoam o seu destino. E quem sabe quantos dramas, até algo trágico, acontecem em algum canto úmido de um quinto andar, onde em um quarto se acomoda uma família inteira, com fome e frio, enquanto em outro um folhetinista treme em seu roupãozinho esfarrapado, escrevendo um folhetim à la Novo Poeta [pseudônimo de I. I. Panáiev (1812-1862), folhetinista famoso por suas paródias de vários escritores contemporâneos] sobre camélias [referência ao romance A dama das camélias (1848), que teve grande repercussão na Rússia, levando o termo "camélia" a entrar na moda em jornais e revistas], ostras e amigos, puxa os cabelos, arranha a pena e tudo isso num clima nada folhetinesco? (...) Será que o folhetim traz apenas uma lista das palpitantes novidades da cidade? Parece que se pode enforcar tudo com o próprio olhar, sedimentar com o próprio pensamento, dizer sua própria palavra, uma palavra nova. Mas, meu Deus! o que o senhor está dizendo! Uma palavra nova. Ora, por acaso é possível a gente dizer todo santo dia uma palavra nova, quando talvez passe a vida inteira sem consegui-la e, ao ouvi-la, ainda não a reconheça. "Sedimentar com o próprio pensamento", diz o senhor. Mas que pensamento, onde consegui-lo? Tente se afastar ao menos uma vírgula dos pensamentos do dono da revista e no mesmo instante ele o rejeitará e o dispensará. Pois bem, admitamos que até haja pensamento, mas a originalidade, mas a originalidade - onde consegui-la? Seja como for, a ideia não é sua. Para isso é preciso... sim, para isso é preciso inteligência, perspicácia, talento! O senhor está querendo exigir demais do nosso folhetinista! (...) A um rabiscador atual (tradução livre da palavra "folhetinista") nem passa pela cabeça que sem ardor, sem pensamento, sem ideias, sem vontade tudo vira rotina e repetição, repetição e rotina.

Gente, 1861.
Tirado do folhetim Sonhos de Petersburgo em verso e prosa, publicado no Brasil em 2012 pela Editora 34, no livro Dois Sonhos.

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