Monday, August 05, 2013

Don João

Não era uma manhã comum. Eu já havia passado as últimas 12 horas dentro de um ônibus, voltando de São Paulo para Florianópolis. Já tinha quase terminado a leitura de A Aldeia de Stepántchikovo e Seus Habitantes, do Dostoiévski, durante essa madrugada de 700 km de insônia – aparentemente superando meu trauma com o autor russo, 14 anos após minha primeira tentativa frustrada de ler um livro seu. Tinha também conhecido uma alemã perdida e solitária mochilando por Florianópolis, e saído do meu caminho para levá-la até um Hostel. Àquela hora da manhã, não fui capaz de acessar a área do meu cérebro que armazena as indicações de caminho, e não consegui pensar em alternativa melhor do que andar por 20 minutos com uma desconhecida.

Talvez fosse de se esperar que mais alguma coisa incomum ocorresse. Mas eu jamais teria antecipado os acontecimentos seguintes.

Eis que estou sentada no terminal, concentrada no livro, enquanto aguardo o horário do ônibus. De repente, vejo uma sombra cambaleante vindo em minha direção. Levanto os olhos e me deparo com um homem em seus quarenta e tantos anos, parecendo mais fora da realidade do que bêbado. Não tiro meus fones de ouvido, o que não o impede de se aproximar, me entregar um bilhete amassado num guardanapo de lanchonete, e de fazer algum comentário lisonjeiro sobre minha aparência.

(Pausa para recapitular que eu tinha acabado de passar as últimas 12 horas acordada numa viagem eterna de ônibus, e minha aparência estava de acordo com a situação, o que reforça minha impressão de que o homem cambaleante vive em outra realidade.)

Tento abrir o bilhete, mas o homem me pede para deixar para depois. E então, inesperadamente, ele começa a cantar. Não consigo identificar a música. Algo sobre olhos? Olhos do senhor? Ah, olhos do Senhor meu Deus. É uma música de igreja. E é longa, interminavelmente longa, com várias estrofes, as quais ele segue cantando.

Ele sabe todas as estrofes.

As pessoas em volta nos encaram. Eu tento novamente abrir o bilhete, e outra vez ele não deixa. E continua cantando. E me olha diretamente nos olhos. Quando finalmente termina de cantar, emenda: “gostou?”. Sem coragem de ser grosseira, respondo educadamente que é uma música bonita. Ele parece satisfeito com o resultado, e começa a se afastar. 

Volto a olhar o bilhete, que ele deixou em cima da minha mala. Quando estico a mão para pegá-lo, ouço: “EI!”, ele grita. “Se eu fosse você, deixava para ler em casa”. Aceno com a cabeça e deixo o bilhete no mesmo lugar. Abro meu livro, e escuto outra vez: “EI!”. Olho. Mais ao longe, ele me aconselha: “você precisa controlar mais a sua ansiedade”. Vira as costas e vai embora, me deixando sozinha com o bilhete:



* O número do celular dele foi censurado para evitar o assédio das fãs.

Tem carro, casa, emprego, é sábio, quer compromisso, é experiente, não tem medo de assumir seus sentimentos, canta, e além de tudo, tem atitude. Talvez eu devesse ligar, hein.

2 comments:

Marco Y said...

Tenho que admitir que ele tem bom gosto e foi sábio ao pedir que abrisse o bilhete em sua casa...

Depois de tanto tempo sem postar, vai voltar com um post falando que está apaixonada?

abs

Kelly Zanin said...

essa história seu pai me contou no hospital tive que vim ler..muito boa..bjos