Wednesday, June 20, 2012

A menina do ponto.


- Tu sabe que horas o ônibus passa aqui?

Olhei para o lado. Quem perguntava era uma moça que parecia ter mais ou menos a minha idade. Ela esperava agoniada pela resposta.

- Quatro e cinco – respondi.

Ela esboçou um sorriso. Eram 16h02. O sorriso foi curto, porque eu completei:

- Mas geralmente atrasa.

Me arrependi de ter acrescentado essa informação quando vi a tensão voltar ao olhar da moça.

- Eu to indo pro centro. Pra procurar emprego – anunciou, com um risinho nervoso.
- Boa sorte.

Ela ficou em silêncio, e eu coloquei meus fones de ouvido, achando que a conversa tinha acabado.

- Tu já trabalha? – Perguntou.

A conversa não tinha acabado.

- Já sim. Estou indo trabalhar agora.
- Você faz o que?
- Dou aulas numa escola de inglês – respondi, enfeitando um tanto meu emprego temporário de monitora e professora auxiliar de inglês.
- Ah, mas então tu já é...

“Velha”, completei mentalmente.

- Quantos anos tu tem?
- 23 – eu disse, após hesitar alguns segundos por ter acabado de sair dos 22.
- Nossa! Não parece. Tu já é bem mais...

“Velha.”

- E você, tem quantos anos?
- 15. Tô indo no PROMENOR pra conseguir emprego.

A conversa tomou um rumo de tópicos genéricos, como itinerários de ônibus, trânsito e afins. Depois de algum tempo, ela retomou o assunto:

- Tomara que eu não precise de um maior comigo lá hoje. Vou precisar, mas tomara que não hoje. Meu irmão não pode ir. Eu moro só com ele. Meus pais faleceram. Meu irmão trabalha o dia todo.
- Quantos anos seu irmão tem?

Foi a única coisa que eu soube dizer.

- 24.
- Ah.
- É uma grande responsabilidade, aos 24 anos.

Concordei.
Silêncio.

- Tu já tem filho?
- Não, não tenho filho – ri.

Ela não entendeu qual era a graça. Na minha cabeça, sou nova demais (despreparada demais, idiota demais, irresponsável demais) para ter um filho. Na cabeça dela, eu já passei a barreira dos 20, e 23 já é quase 25, que é praticamente como se eu tivesse 30 anos. Na cabeça dela, eu sou velha demais para morar com meus pais e não ter alguém para sustentar. Talvez a cabeça dela esteja certa.

- Ai, graças a Deus – exclamou, interrompendo minha auto-análise.

Era o ônibus que chegava.
Atrasado.

3 comments:

Suzanne Matos said...

Gosto dos seus textos, ja disso isso?! =*

Rebeca said...

Entrei temporariamente em depressão depois de ler isso (y). Crise existencial, etc.

Nanci said...

Eu vi a menina no ponto.