Friday, June 29, 2012

No ônibus


Monday, June 25, 2012

À minha colega da pré-escola:

Eu não sei quem você é. Não sei seu nome, não tenho nenhuma lembrança real da sua existência. Mas todas as vezes que eu olhar esta nossa foto da festa junina de 1993 vou pensar em você, e me perguntar se você se deu bem na vida, apesar deste começo conturbado:


Vendo essa imagem, eu imagino que a sua vida não tenha sido tão fácil. Talvez você tenha tido uma mãe que não se importava muito com você, sempre ocupada demais com outras coisas para reparar em como você saía em público. Ou talvez uma irmã mais velha cruel, que se ressentiu com a sua chegada ao mundo e te odiava, até descobrir que você seria um ótimo brinquedo vivo. Ou, quem sabe, um pai viúvo que sempre fazia o melhor possível, mas deixava a desejar quando as situações do dia-a-dia requeriam algum conhecimento feminino. Pode ser que seus pais tivessem o costume de largar você na casa da sua avó, e que ela te amasse demais para te dizer que não, sua maquiagem não estava bonita.
Ou você era a filha do meio.

Eu espero sinceramente que você tenha superado. Que o seu psicólogo tenha te ajudado a ser feliz sem a atenção da sua mãe. Que você tenha conseguido se vingar da sua irmã mais velha, entrando no quarto dela, mexendo em todas as coisas, e sendo insuportável quando ela começou a namorar. Que tenha encontrado uma figura materna para te guiar na vida, porque ser mulher não é fácil, e percebido ainda cedo que a casa da sua avó, aquele ambiente tão cheio de amor, carinho, alegria, tolerância e compreensão, é completamente diferente do mundo real.
Ou que você não fosse a filha do meio.

Enfim, eu espero que você seja uma pessoa feliz.

Wednesday, June 20, 2012

A menina do ponto.


- Tu sabe que horas o ônibus passa aqui?

Olhei para o lado. Quem perguntava era uma moça que parecia ter mais ou menos a minha idade. Ela esperava agoniada pela resposta.

- Quatro e cinco – respondi.

Ela esboçou um sorriso. Eram 16h02. O sorriso foi curto, porque eu completei:

- Mas geralmente atrasa.

Me arrependi de ter acrescentado essa informação quando vi a tensão voltar ao olhar da moça.

- Eu to indo pro centro. Pra procurar emprego – anunciou, com um risinho nervoso.
- Boa sorte.

Ela ficou em silêncio, e eu coloquei meus fones de ouvido, achando que a conversa tinha acabado.

- Tu já trabalha? – Perguntou.

A conversa não tinha acabado.

- Já sim. Estou indo trabalhar agora.
- Você faz o que?
- Dou aulas numa escola de inglês – respondi, enfeitando um tanto meu emprego temporário de monitora e professora auxiliar de inglês.
- Ah, mas então tu já é...

“Velha”, completei mentalmente.

- Quantos anos tu tem?
- 23 – eu disse, após hesitar alguns segundos por ter acabado de sair dos 22.
- Nossa! Não parece. Tu já é bem mais...

“Velha.”

- E você, tem quantos anos?
- 15. Tô indo no PROMENOR pra conseguir emprego.

A conversa tomou um rumo de tópicos genéricos, como itinerários de ônibus, trânsito e afins. Depois de algum tempo, ela retomou o assunto:

- Tomara que eu não precise de um maior comigo lá hoje. Vou precisar, mas tomara que não hoje. Meu irmão não pode ir. Eu moro só com ele. Meus pais faleceram. Meu irmão trabalha o dia todo.
- Quantos anos seu irmão tem?

Foi a única coisa que eu soube dizer.

- 24.
- Ah.
- É uma grande responsabilidade, aos 24 anos.

Concordei.
Silêncio.

- Tu já tem filho?
- Não, não tenho filho – ri.

Ela não entendeu qual era a graça. Na minha cabeça, sou nova demais (despreparada demais, idiota demais, irresponsável demais) para ter um filho. Na cabeça dela, eu já passei a barreira dos 20, e 23 já é quase 25, que é praticamente como se eu tivesse 30 anos. Na cabeça dela, eu sou velha demais para morar com meus pais e não ter alguém para sustentar. Talvez a cabeça dela esteja certa.

- Ai, graças a Deus – exclamou, interrompendo minha auto-análise.

Era o ônibus que chegava.
Atrasado.

Wednesday, June 13, 2012

Razões pelas quais sou frustrada comigo mesma:


  • Não posso ler durante viagens de carro ou ônibus porque fico enjoada. Invejo todos os que conseguem;
  • Não consigo prender meu cabelo com um nó;
  • Tenho vergonha de fazer movimentos bruscos em público (é, tenho);
  • Não consigo associar as letras C, D, E, F, G, A e B às respectivas notas musicais;
  • Tenho muita dificuldade para entender metáforas poéticas. "Explique o que o autor quis dizer com..." é uma frase que me aterroriza;
  • Minhas costas não se adaptam a colchões de cama box;
  • Não importa o quanto eu me esforce, não consigo entender acordes musicais;
  • Meu entendimento artístico se limita a obras de arte que se parecem com a realidade;
  • Não sei compor músicas;
  • Não sei fazer contas.