Monday, March 05, 2012

Para a minha irmã.

Queria que você estivesse aqui.

Que visse a neve comigo, que sentisse o vento gelado e cortante que vem antes de nevar. Que você tivesse a chance, assim como eu e a Lorelai Gilmore, de saber que tudo vai dar certo quando neva. Que sentisse o frio que amortece, que machuca tanto a ponto de ser engraçado, porque todos os problemas da vida somem quando a sua maior preocupação é achar um lugar quentinho pra voltar a sentir as extremidades do corpo.

Queria que experimentasse o choque térmico de sair da neve e entrar no metrô, e o alívio que se transforma em agonia, de tanto calor. E que depois soubesse como é o alívio de sair do calor do metrô, e ser recebida do lado de fora pelo frio, pra ter outra vez o desespero por um lugar quente, e assim infinitamente.

Queria que estivesse aqui pra ver as pessoas de cabelo colorido. Que conseguisse identificar o punk do cabelo laranja, ou o cowboy da roupa azul. Que visse a mulher com a cara pintada de palhaço lendo jornal no metrô. Que conhecesse o mendigo da placa que diz “1 cent = smile”. Que gostasse da velhinha que precisa usar um andador, mas sempre está passeando pela rua.

Queria que fosse comigo em todos os shows de graça espalhados pela cidade. Que ouvisse a música tradicional do Québec, e que tentasse aprender a letra de La Ziguezon Zinzon, depois de ver como o povo daqui se diverte cantando aos berros aquela seqüência louca de palavras. Que visse como o frio não impede que as pessoas fiquem horas no relento, cantando, dançando, pulando, rindo, participando de todas as atividades noturnas ao ar livre (e fumando muita maconha).

Queria que você provasse o poutine, que fosse louca pelo beaver tail de chocolate com banana, que ficasse grudada na vitrine da Pekarna namorando os bolos e mousses mais lindos do mundo. Que soubesse que Quiznos é melhor que Subway, que A&W é melhor que McDonald’s, e que em qualquer lugar uma bebida pequena é maior que a bebida grande no Brasil – e que é bem fácil acostumar com o tamanho exagerado das coisas.

Queria que fosse comigo passear no Dollarama, feliz por saber que pode comprar qualquer coisa que quiser ali porque tudo custa $1, $1,50 ou $2. Que pegasse cupom de desconto de todos os lugares possíveis, e que descobrisse onde estão todas as promoções da cidade.

Queria que gostasse de Montreal tanto quanto eu gosto.


Mas queria que você soubesse, também, quanta saudade eu sinto de você, quanta falta você faz aqui, e como seria tudo melhor com você por perto, pra que você visse tudo que eu vejo. Queria que você entendesse a importância do seu incentivo pra eu criar coragem de acabar com esse bloqueio pra escrever, e como preciso de você aí pra me manter calma quando eu surto. E quanto eu gostaria de estar presente em todos os segundos da sua vida, e de saber o que dizer quando você precisa que eu diga alguma coisa.


E queria que você soubesse que esse pedaço de papel na árvore da Yoko Ono faz uma diferença enorme na minha vida, aqui em Montreal ou em qualquer lugar que eu esteja.

4 comments:

Thami said...

Fez e ainda faz a diferença na minha vida também.
Você o quanto eu queria estar perto.

Te amo.

Nanci said...

Preciso confessar que fiquei com inveja.

Marco Y said...

Se eu não me engano, acompanho seu blog (esporadicamente) desde 2008 e sempre me surpreendo com seus textos.

Muito emocionante.

Felicidades,

Marco Y

Eduardo said...

Oi Bel, parabéns pelo seu blog! Continue escrevendo sempre!

Aproveito a oportunidade para te apresentar o meu:

www.maneirasimples.wordpress.com

Um abraço,

Eduardo