Saturday, July 21, 2012

Meus pequenos.


Não sei o que mais me faz amar vocês. Não sei se é a bagunça que fica no meu quarto quando vocês três me visitam. Não sei se é o barulho que vocês fazem, cada um querendo me contar uma coisa diferente na mesma hora. Não sei se são as letrinhas da sopa, que inexplicavelmente vão parar na escada da minha casa depois da janta.

*

Talvez seja a emoção de ouvir você me chamar de Bel pela primeira vez em um ano e meio, depois de eu passar um dia inteiro tentando te fazer falar. Pode ser o orgulho que sinto, disfarçado de cansaço, de saber que eu sou a pessoa que você escolhe para subir e descer as escadas de casa incontáveis e eternas vezes por dia. Talvez sejam as brincadeiras repetidas que te fazem rir cada vez mais, e o olhar de cumplicidade que você me dá quando só nós duas entendemos a graça de algum gesto que é um código não-verbal só nosso. Ou então a sua mania de olhar para a minha cara, e não para a câmera, quando eu quero tirar uma foto com você. E esse dedinho que você usa para apontar para mim e me cutucar... É, talvez seja isso.


*

Talvez seja a alegria de ver você começando a ler, a escrever, e a reclamar que nunca tem como saber se as palavras são acentuadas, se é com CH ou com X, ou se o S tem som de “ssss” ou de Z. Pode ser a identificação imediata que tive com você o dia que você me disse que se tivesse R$ 100, gastaria tudo na padaria e na locadora. Talvez seja essa sua cara esmagável, e o jeito que você me deixa te esmagar. É possível que seja o número de vezes que você me chamou de “MINHA Bel”, ou o fato de você dizer que sabe dançar hip hop. Ou então o jeito que você chama o Scar de “ininigo do Rei Leão”. Ou ainda quando você me pediu, preocupado, que eu não esquecesse de você quando eu fosse para o “Cadaná”. Na verdade, talvez seja absolutamente tudo que você diz:

     Sua irmã: "ISABEL ao contrário é LEBASI. Diz outra palavra pra eu inverter."
     Você: "Computador."
     Eu: "Era bem essa palavra que eu tava pensando."
     Você: "Acho que foi Deus que me disse o que você tava pensando no seu cérebro."


*

Talvez seja o fato de eu ter acompanhado o seu nascimento, seus primeiros passos, suas primeiras palavras, suas primeiras frases geniais. Pode ser porque, aos cinco anos, sua parte preferida de Procurando Nemo era aquela cena em que fica tudo escuro e a Dory pergunta “ô Consciência, eu morri?” para o Marlin. Talvez sejam as coreografias de dança que você costumava inventar. Ou, quem sabe, o seu gosto por música, a sua vontade insaciável de aprender, as inúmeras listas de palavras que você faz e me pede a tradução para o inglês. Talvez seja a sua independência, sua personalidade forte, seu senso de responsabilidade. Ou, ainda, os comentários que você faz enquanto vê Super Nanny, criticando os pais que não educam os filhos direito. É possível que seja porque agora, com quase 10 anos, você não me pede mais um papel para desenhar, mas sim que eu pinte as suas unhas. Acho que é porque enquanto pinto suas unhas, percebo que estou pensando em vocês três e implorando: por favor, não cresçam tão rápido.


Friday, June 29, 2012

No ônibus


Monday, June 25, 2012

À minha colega da pré-escola:

Eu não sei quem você é. Não sei seu nome, não tenho nenhuma lembrança real da sua existência. Mas todas as vezes que eu olhar esta nossa foto da festa junina de 1993 vou pensar em você, e me perguntar se você se deu bem na vida, apesar deste começo conturbado:


Vendo essa imagem, eu imagino que a sua vida não tenha sido tão fácil. Talvez você tenha tido uma mãe que não se importava muito com você, sempre ocupada demais com outras coisas para reparar em como você saía em público. Ou talvez uma irmã mais velha cruel, que se ressentiu com a sua chegada ao mundo e te odiava, até descobrir que você seria um ótimo brinquedo vivo. Ou, quem sabe, um pai viúvo que sempre fazia o melhor possível, mas deixava a desejar quando as situações do dia-a-dia requeriam algum conhecimento feminino. Pode ser que seus pais tivessem o costume de largar você na casa da sua avó, e que ela te amasse demais para te dizer que não, sua maquiagem não estava bonita.
Ou você era a filha do meio.

Eu espero sinceramente que você tenha superado. Que o seu psicólogo tenha te ajudado a ser feliz sem a atenção da sua mãe. Que você tenha conseguido se vingar da sua irmã mais velha, entrando no quarto dela, mexendo em todas as coisas, e sendo insuportável quando ela começou a namorar. Que tenha encontrado uma figura materna para te guiar na vida, porque ser mulher não é fácil, e percebido ainda cedo que a casa da sua avó, aquele ambiente tão cheio de amor, carinho, alegria, tolerância e compreensão, é completamente diferente do mundo real.
Ou que você não fosse a filha do meio.

Enfim, eu espero que você seja uma pessoa feliz.

Wednesday, June 20, 2012

A menina do ponto.


- Tu sabe que horas o ônibus passa aqui?

Olhei para o lado. Quem perguntava era uma moça que parecia ter mais ou menos a minha idade. Ela esperava agoniada pela resposta.

- Quatro e cinco – respondi.

Ela esboçou um sorriso. Eram 16h02. O sorriso foi curto, porque eu completei:

- Mas geralmente atrasa.

Me arrependi de ter acrescentado essa informação quando vi a tensão voltar ao olhar da moça.

- Eu to indo pro centro. Pra procurar emprego – anunciou, com um risinho nervoso.
- Boa sorte.

Ela ficou em silêncio, e eu coloquei meus fones de ouvido, achando que a conversa tinha acabado.

- Tu já trabalha? – Perguntou.

A conversa não tinha acabado.

- Já sim. Estou indo trabalhar agora.
- Você faz o que?
- Dou aulas numa escola de inglês – respondi, enfeitando um tanto meu emprego temporário de monitora e professora auxiliar de inglês.
- Ah, mas então tu já é...

“Velha”, completei mentalmente.

- Quantos anos tu tem?
- 23 – eu disse, após hesitar alguns segundos por ter acabado de sair dos 22.
- Nossa! Não parece. Tu já é bem mais...

“Velha.”

- E você, tem quantos anos?
- 15. Tô indo no PROMENOR pra conseguir emprego.

A conversa tomou um rumo de tópicos genéricos, como itinerários de ônibus, trânsito e afins. Depois de algum tempo, ela retomou o assunto:

- Tomara que eu não precise de um maior comigo lá hoje. Vou precisar, mas tomara que não hoje. Meu irmão não pode ir. Eu moro só com ele. Meus pais faleceram. Meu irmão trabalha o dia todo.
- Quantos anos seu irmão tem?

Foi a única coisa que eu soube dizer.

- 24.
- Ah.
- É uma grande responsabilidade, aos 24 anos.

Concordei.
Silêncio.

- Tu já tem filho?
- Não, não tenho filho – ri.

Ela não entendeu qual era a graça. Na minha cabeça, sou nova demais (despreparada demais, idiota demais, irresponsável demais) para ter um filho. Na cabeça dela, eu já passei a barreira dos 20, e 23 já é quase 25, que é praticamente como se eu tivesse 30 anos. Na cabeça dela, eu sou velha demais para morar com meus pais e não ter alguém para sustentar. Talvez a cabeça dela esteja certa.

- Ai, graças a Deus – exclamou, interrompendo minha auto-análise.

Era o ônibus que chegava.
Atrasado.

Wednesday, June 13, 2012

Razões pelas quais sou frustrada comigo mesma:


  • Não posso ler durante viagens de carro ou ônibus porque fico enjoada. Invejo todos os que conseguem;
  • Não consigo prender meu cabelo com um nó;
  • Tenho vergonha de fazer movimentos bruscos em público (é, tenho);
  • Não consigo associar as letras C, D, E, F, G, A e B às respectivas notas musicais;
  • Tenho muita dificuldade para entender metáforas poéticas. "Explique o que o autor quis dizer com..." é uma frase que me aterroriza;
  • Minhas costas não se adaptam a colchões de cama box;
  • Não importa o quanto eu me esforce, não consigo entender acordes musicais;
  • Meu entendimento artístico se limita a obras de arte que se parecem com a realidade;
  • Não sei compor músicas;
  • Não sei fazer contas.

Monday, March 05, 2012

Para a minha irmã.

Queria que você estivesse aqui.

Que visse a neve comigo, que sentisse o vento gelado e cortante que vem antes de nevar. Que você tivesse a chance, assim como eu e a Lorelai Gilmore, de saber que tudo vai dar certo quando neva. Que sentisse o frio que amortece, que machuca tanto a ponto de ser engraçado, porque todos os problemas da vida somem quando a sua maior preocupação é achar um lugar quentinho pra voltar a sentir as extremidades do corpo.

Queria que experimentasse o choque térmico de sair da neve e entrar no metrô, e o alívio que se transforma em agonia, de tanto calor. E que depois soubesse como é o alívio de sair do calor do metrô, e ser recebida do lado de fora pelo frio, pra ter outra vez o desespero por um lugar quente, e assim infinitamente.

Queria que estivesse aqui pra ver as pessoas de cabelo colorido. Que conseguisse identificar o punk do cabelo laranja, ou o cowboy da roupa azul. Que visse a mulher com a cara pintada de palhaço lendo jornal no metrô. Que conhecesse o mendigo da placa que diz “1 cent = smile”. Que gostasse da velhinha que precisa usar um andador, mas sempre está passeando pela rua.

Queria que fosse comigo em todos os shows de graça espalhados pela cidade. Que ouvisse a música tradicional do Québec, e que tentasse aprender a letra de La Ziguezon Zinzon, depois de ver como o povo daqui se diverte cantando aos berros aquela seqüência louca de palavras. Que visse como o frio não impede que as pessoas fiquem horas no relento, cantando, dançando, pulando, rindo, participando de todas as atividades noturnas ao ar livre (e fumando muita maconha).

Queria que você provasse o poutine, que fosse louca pelo beaver tail de chocolate com banana, que ficasse grudada na vitrine da Pekarna namorando os bolos e mousses mais lindos do mundo. Que soubesse que Quiznos é melhor que Subway, que A&W é melhor que McDonald’s, e que em qualquer lugar uma bebida pequena é maior que a bebida grande no Brasil – e que é bem fácil acostumar com o tamanho exagerado das coisas.

Queria que fosse comigo passear no Dollarama, feliz por saber que pode comprar qualquer coisa que quiser ali porque tudo custa $1, $1,50 ou $2. Que pegasse cupom de desconto de todos os lugares possíveis, e que descobrisse onde estão todas as promoções da cidade.

Queria que gostasse de Montreal tanto quanto eu gosto.


Mas queria que você soubesse, também, quanta saudade eu sinto de você, quanta falta você faz aqui, e como seria tudo melhor com você por perto, pra que você visse tudo que eu vejo. Queria que você entendesse a importância do seu incentivo pra eu criar coragem de acabar com esse bloqueio pra escrever, e como preciso de você aí pra me manter calma quando eu surto. E quanto eu gostaria de estar presente em todos os segundos da sua vida, e de saber o que dizer quando você precisa que eu diga alguma coisa.


E queria que você soubesse que esse pedaço de papel na árvore da Yoko Ono faz uma diferença enorme na minha vida, aqui em Montreal ou em qualquer lugar que eu esteja.

Thursday, February 16, 2012

Metade.


Depois de três meses de inverno no Canadá, 0°C é calor. Nada de casaco, cachecol, touca e luvas.  Frio mesmo é de -10 para baixo, se tiver vento. Já deu tempo de aprender que sol é sinônimo de frio, e que neve significa que a temperatura vai subir. Já não tenho dúvida de que um dia inteiro nevando é melhor que uma hora de chuva, porque a chuva congela no chão, e as calçadas se transformam em pistas gratuitas de patinação no gelo.

Em 12 semanas andando por aí, raramente encontro algum animal de rua. Se em um primeiro momento isso se explica pelo povo consciente que não abandona seus bichinhos de estimação, logo se descobre que os animais de rua simplesmente não sobrevivem ao frio. Por outro lado, não é necessário mais que um dia para notar que a população de esquilos no Canadá é maior que a de seres humanos. Mas 12 semanas não são o suficiente para deixar de achar que esquilos são as coisas mais lindas do mundo, nem para aceitar o fato de que aquelas gracinhas são pragas transmissoras de doenças, quase equivalentes aos ratos no Brasil.

Durante os 93 dias que passei em Montréal até agora, proporcionalmente convivi com mais brasileiros do que nos outros 8187 dias da minha vida (não vou enganar ninguém com esse “proporcionalmente” ali; realmente convivo com mais brasileiros aqui do que no Brasil). Na minha escola, só de Florianópolis, conheci seis. Do Campeche, dois. Do resto do país, perdi a conta quando passou de quarenta. E ficou muito claro que o que une todos os brasileiros no exterior é uma mesma paixão. Não, não é o amor pelo futebol, nem o carnaval, nem o calor, nem as praias, nem o churrasco, nem mesmo o feijão com arroz. É o brigadeiro.

Em quase 2250 horas vividas aqui, devo ter passado por volta de 30 horas lendo os jornais de Montréal, que são gratuitos. Foi assim que eu aprendi a utilizar o verbo no modo condicional em francês, antes de me ensinarem na escola. Sim, a desgraça do condicional teria afetado a imprensa francófona também. Ninguém está imune.


Três meses, já.
Metade já foi.