Saturday, April 30, 2011

O homem do ponto.

Está sentado no ponto de ônibus. É daquelas pessoas que aparentam ter uns 80 anos, mas 20 desses acabam sendo só o peso da vida difícil. A pele, negra, está descascada.

Ele cheira mal.

Usa um moletom que há muito tempo deve ter sido branco, e agora só tem cor de sujeira. A calça jeans está desbotada. No pé esquerdo, um chinelo gasto. O outro pé está descalço, e o chinelo está deixado de lado, no chão. Ele não tem o quinto dedo do pé direito. Mas já teve os cinco. A cicatriz está ali.

Na cabeça, um boné que cobre boa parte do seu rosto. De vez em quando me olha, sem expressão, escondendo os olhos na sombra do boné. Sua barba e seu cabelo parecem ser uma coisa só: encaracolados, curtos e grisalhos. Os lábios estão acomodados de uma forma que faz com que ele pareça uma criança emburrada.

Tem um cigarro na mão esquerda, e uma caixa de fósforos na direita. Por algum motivo, resolve não fumar. Guarda o cigarro – que parece ser o único que tem – no bolso traseiro da calça, junto com os fósforos.

Fica olhando em frente, com seu campo de visão limitado pelo boné.
Imóvel.

O ônibus chega ao ponto. Eu embarco, ele não. E continua lá, sentado, enquanto eu vou embora.

Thursday, April 28, 2011

Olha, mãe! Também fui eu que fiz.

Pacman.
Bolinhas não-temáticas.
A menina que roubava livros.
Caixinha do Super Mario. Trabalho pra caramba.

Monday, April 25, 2011

Percepção de uma mini-capitalista.

Minha prima de dois anos e sete meses me mostra sua cesta de páscoa e comenta sobre o conteúdo:

- Esse ovo é do Backyardigans. O papai deu dinheiro pro coelhinho, daí o coelhinho foi lá e comprou e trouxe pra mim.


A vida não tá fácil nem pro coelho.

Thursday, April 21, 2011

Big mother is watching you

Comentário no post Antes e depois:


Minha mãe, senhoras e senhores.

Sim, agora ela lê o blog.


Hoje de manhã, quando levantei e cheguei à cozinha, ela me recebeu com um simpático "filha, que bom te ver!".
Ou seja, vou passar o dia todo apreensiva porque ela deve estar planejando alguma coisa cruel. Ou vai me pedir algum favor. Ou ela simplesmente não me ama mais. Porque uma coisa que eu aprendi nesses meus quase 22 anos de vida é que a maior demonstração de carinho da minha mãe é quando ela diz "eu não gosto mais de você".

Monday, April 18, 2011

Sobre as melhores coisas da vida

Eu ia escrever, mas achei que fazendo um gráfico eu ilustraria melhor o que quero dizer:


Pausa para reflexão.

Friday, April 15, 2011

Antes e depois.

Quem me tem adicionada no Facebook ou no Orkut já deve ter visto estas fotos. Mas eu gosto tanto delas, e de ter feito meus primos colaborarem comigo nesse remake de fotos antigas, que resolvi postar aqui também:

Detalhe para o fato de que vinte anos depois eu ainda não consigo pegar minha prima no colo.


Noções de moda um pouquinho melhores.
Aprendi a sentar como uma menina. E aí parei de usar vestidos.
É, a gente se gosta muito mais hoje em dia.


Thursday, April 14, 2011

Entendimento peculiar

Cena: minha mãe e eu conversamos sobre música, enquanto eu mostro algumas bandas pra ela.

Diálogo original:

Mãe: Ah, essa música é daquela banda que é parecida com a outra das músicas de viagem?
Eu: Não. Essa é uma parecida com a que é parecida com a outra de viagem.

Começa outra música.

Mãe: E essa é aquela banda dos "aah aaahs"?
Eu: Não, essa é outra parecida com a dos "ah ahs".

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Tradução:

Mãe: Ah, essa música é do Beirut, parecido com Devotchka?
Eu: Não, essa é do Fanfarlo.

Mãe: E essa é Mumford & Sons?
Eu: Não, essa é Noah and the Whale.

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Beirut | Devotchka | Fanfarlo | Mumford & Sons | Noah and the Whale

Todas ótimas bandas. E metade delas, dica da Alessandra.

Time's up.

Confesso que eu nunca tinha entendido direito por que as pessoas viviam dizendo que precisavam de "um tempo". Dar um tempo sempre pareceu ser a solução de todos os problemas de todo mundo, reais ou da ficção, e eu não conseguia me identificar com essa necessidade. Um ou dois dias pra pensar e processar informações, claro. Mas não aquele tempo indeterminado.

Só que aí, nestes últimos meses, minha mãe descobriu que estava com câncer, que era maligno, que já tinha metástases, que não podia operar, que tinha que começar quimioterapia imediatamente. Aí eu cancelei temporariamente minha viagem para o Canadá, que estava toda organizada, e fiquei em casa com ela. Isso pouco depois de ter terminado um relacionamento de quase dois anos. E minha mãe começou a quimioterapia, e ficou careca, e passou mal, e teve que mudar todos os hábitos alimentares, e teve que começar uma luta contra a insistente queda de imunidade. 

E ela está ali, firme e forte, na metade do tratamento. E mais chata e implicante do que nunca, dando muito material pra este blog.

Mas eu não postei nada.

Porque pela primeira vez na vida precisei de um tempo.
E entendi que às vezes as coisas são mais do que as pessoas conseguem lidar imediatamente.

Foram cinco meses de tempo. Mas agora chega. O tempo já fez o que tinha que fazer, e eu voltei.

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- Mãe, voltei a postar no blog, sabia?
- Nossa, é? Depois de tantos meses...
- É. E isso significa que agora tudo que você falar vai parar na internet de novo.

Wednesday, April 13, 2011

Dia 10 (finalmente): Menções honrosas

Nesta série de posts, muitos livros bons acabaram ficando de fora. Por isso resolvi terminar citando mais alguns que me marcaram de alguma forma:

O Sol é Para Todos: É um livro lindo com uma história tocante, escrita por Harper Lee em 1960. Trata da injustiça racial e do preconceito, se passa numa pequena cidade rural do sul dos Estados Unidos, e é narrada por uma criança. Os personagens são marcantes, daqueles que acabam fazendo parte da sua vida depois. O livro ganhou o prêmio Pulitzer, e a adaptação para o cinema é considerada um clássico. Se eu tivesse feito o post "livro que mais recomendo", que estava na idéia original dos dez posts, teria indicado essa obra.

O Caso do Olho de Vidro: Romance policial bem despretensioso, daqueles que servem pra distrair mesmo. O personagem principal é o advogado criminal Perry Mason, que protagonizou 86 dos quase 150 livros escritos por Erle Stanley Gardner (somando os livros que escreveu com sete pseudônimos diferentes). A leitura é leve e a história acaba sendo cômica. Ótimo entretenimento pra quem gosta de histórias de detetives.

Fama & Anonimato: O Gay Talese me deprime porque ele escreve tudo que eu queria e não sei escrever. O texto é impecável, e em 494 páginas parece que não tem nenhuma palavra sobrando ou fora de lugar. Eu achava que o melhor dele era ter escrito o perfil do Frank Sinatra sem falar com o Frank Sinatra, mas aí li o perfil de Nova York e fiquei maravilhada. E o melhor foi ter encontrado esse livro no sebo por R$ 15. Os livros do Gay Talese são muito caros em livrarias. E, pra ser justa, valem o que custam.

O Mistério do Cinco Estrelas:  Optei por este por ser o primeiro, mas poderia ter colocado aqui qualquer um dos 15 livros do Marcos Rey na Série Vagalume. Foi ele que me interessou por literatura quando eu tinha meus 10, 11 anos. As histórias eram cheias de suspense, mistério e assassinatos, e nada infantis. Leo, Ângela e Gino, protagonistas dos meus livros preferidos, fizeram parte da minha adolescência.

Autobiografia, da Agatha Christie: Pra mim esse livro foi um tipo de prêmio por ter lido quase todos os outros que ela escreveu (isso na época, porque agora já li todos, ou pelo menos tudo que foi publicado no Brasil). Ao ler a autobiografia pela primeira vez (já li três), fiquei com a impressão de ser amiga da Agatha, de estar sentada com ela tomando chá enquanto ela contava histórias antigas. A narrativa é de uma simplicidade agradável, e a Agatha não respeita muito a ordem cronológica, a não ser pelo fato de começar contando histórias aleatórias de sua infância. Ainda gosto de folhear o livro e ler qualquer trecho que apareça primeiro, porque todos são bons:
Adorava "problemas"! Apesar de serem somas disfarçadas, possuíam um encanto intrigante: "John tem cinco maçãs, George tem seis; se John tirar duas maçãs a George, quantas terá George no fim do dia?" E assim por diante. Hoje em dia, pensando nesses problemas, sinto uma vontade quase irreprimível de responder: "Depende do quanto George gosta de maçãs".
Agatha Christie, falando sobre seu gosto pela matemática na infância.


E assim, depois de muito tempo, finalmente termino a série de posts sobre livros.

Tuesday, April 12, 2011

Dia 9: Livro mais velho que eu tenho.

Quando eu era adolescente, lá pelos meus 13 anos, meu pai encontrou um livro que tinha sido do meu avô. É O Flagelo de Deus, do Maurice Leblanc. "Uma estupenda aventura de Arsène Lupin", o famoso personagem francês. 

Não é o livro mais velho que eu li, mas é o mais antigo que tenho. Essa edição é de 1958 (se é que eu interpretei corretamente os números romanos). Na internet, a obra consta como sendo de 1953, o que é um pouco estranho já que Maurice Leblanc morreu em 1941. Imagino então que essa data seja da publicação no Brasil. Curiosamente, não consegui encontrar a informação de quando o livro original foi escrito.

De qualquer forma, devo confessar que não lembro detalhes da história. Um dos motivos é que a minha memória é péssima. Outro, que naquela fase da vida eu não fazia nada além de ler, então as histórias foram todas se misturando na minha cabeça. E o terceiro motivo é que O Flagelo de Deus é a segunda parte de um outro livro, A Ilha dos Trinta Ataúdes, que eu nunca li. Tenho apenas algumas lembranças da história, e todas elas são referentes a maldições, mortes, demônios, feiticeiros e desgraças. Provavelmente por isso a obra me interessou, na verdade.

Meu avô paterno faleceu muitos anos antes de eu nascer. A única coisa que tenho dele é esse livro de páginas amareladas. E, para a minha sorte, uma anotação feita por ele no topo da primeira página:



Acho que eu teria gostado muito do meu avô.

Monday, April 11, 2011

Dia 8: Série de livros que eu mais gosto.

Trilogia Millennium, do Stieg Larsson.

São os melhores livros que eu já li na vida.
Com a melhor personagem que eu já conheci na literatura.
Eu nem deveria falar muito, porque virei fã demais dessa trilogia. Sabe quando o livro é tão bom que chega a dar um desespero? Pois então.

Comecei a ler Os Homens Que Não Amavam As Mulheres sem saber direito do que se tratava. Achei o título interessante, e o preço do livro quase novo no sebo, mais ainda. Três dias e 522 páginas depois, eu já estava pedindo desculpas à Agatha Christie por achar outro escritor melhor que ela.
Gostei ainda mais dos dois livros seguintes: A Menina Que Brincava Com Fogo e A Rainha Do Castelo De Ar. Eu precisava ler com um algodão molhado em água gelada pra aliviar a ardência nos olhos. Fechava um olho pra passar o algodão gelado, e continuava lendo com o outro olho.

Não foi uma época muito saudável.

Crimes sexuais, (muitos) assassinatos, tráfico de mulheres, segredos de Estado, jornalistas-detetives, hackers e muito suspense.


Fico brava porque não fui eu que escrevi, fico triste porque a Lisbeth Salander vive na ficção e eu aqui fora na realidade, mas principalmente fico revoltada porque o Larsson morreu logo depois de terminar os três livros, que seriam apenas os primeiros de uma série de dez. E agora o mundo precisa esperar a mulher do falecido lutar contra a família dele pelos direitos autorais, porque ela diz ter um manuscrito quase acabado do que seria o quarto livro, e pretende publicá-lo se ganhar na justiça. Então talvez o povo que está ficando maluco precisando de mais um pouquinho de Mikael e Lisbeth e conspirações e investigações e nomes suecos confusos (leia-se "eu"), tenha um último consolo.

Sunday, April 10, 2011

Dia 7: Primeiro livro que eu li.

Cinco meses depois...

Fiz umas poucas mudanças nesse meme (que acho que nem existe mais, depois de tanto tempo) pra ver se eu desempaco, supero logo esse negócio dos livros, e volto a postar direito aqui no blog.

Vamos lá.

O primeiro livro de verdade que eu li foi Sem Pé Nem Cabeça, do Pedro Bandeira. Não estou considerando livrinhos muito infantis, cheios de desenhos e vazios de palavras (nem gibis da Turma da Mônica). Um dos itens da lista de materiais da segunda série do primário era um livro, e foi esse que minha mãe comprou pra mim. Eu tinha seis anos.

Era uma história confusa, bem coerente com o título, sobre um menino que pensava, colocava os pensamentos no papel, criava coisas, e perdia o controle sobre as coisas depois que dava vida a elas.

Quando li esse livro pela primeira vez, nem imaginava que o Pedro Bandeira voltaria a me fazer companhia na adolescência, com os ótimos A Droga da Obediência, Pântano de Sangue, Anjo da Morte e A Droga do Amor, todos aventuras de detetive dos Karas, com títulos que meus pais não gostavam muito.

Ano passado dei meu exemplar de Sem Pé Nem Cabeça pra minha prima de seis anos. Me arrependo um pouco disso, porque cuidei muito bem do livro desde 1996, e não confio muito nela pra fazer o mesmo por mais uma década e meia. Mas espero que ela goste da história tanto quanto eu gostei.