Thursday, December 01, 2011

Coisas de Montreal

Estou em Montreal há 18 dias. Nesse tempo percebi uma coisa meio estranha: a cidade está sempre molhada. Todas as vezes que eu vou pra rua tem aquele ar de que acabou de chover. A rua e a calçada molhadas, um pouco de água empoçada nos cantos, uns restos de gotas pingando das árvores... "Ok", você pensa. "Chove muito em Montreal, Isabel, qual é o problema?"

O problema é que não chove muito em Montreal.

Sim, os dias são quase todos cinzentos, e sim, a previsão sempre é de chuva, mas eu raramente vejo a chuva. Passo relativamente bastante tempo andando pela rua, de um lado pro outro, no trajeto casa - escola - loja nerd onde eu posso comprar balas numa latinha de cogumelo do super mario - casa. Até agora, acho que precisei abrir o guarda-chuva três vezes. Mas todo santo dia tem esse resquício de chuva espalhado por aí.

Não que isso faça lá muita diferença na minha vida, mas eu queria saber por que a cidade vive molhada.

***

Em questão de uma semana e meia, a vista que eu tenho do meu quarto foi disso:


Pra isso:


É, nevou. Foi só uma neve fraquinha, durante um dia, e já ficou tudo branco e lindo. As ruas foram tomadas por centenas de tratorzinhos removendo o gelo da pista, e eu aprendi que em dia de neve preciso sair mais cedo de casa pra não chegar atrasada. Dois dias depois, não tinha mais neve nenhuma, e a cidade estava só molhada de novo.

Aí essa semana, na escola, teve um cursinho básico de como sobreviver ao inverno canadense. "Não se assustem", a professora disse, "o frio de -35ºC é só de vez em quando. Geralmente, a temperatura fica só entre -15 e -20". Ah, bom. Se é assim tá tranquilo, né? Depois ela deu mais umas dicas de que sapato usar, que casaco vestir, como proceder quando o frio rasgar a sua pele, e seus dedos congelados caírem... Esse tipo de coisa. Foi útil e assustador, e meu cérebro ficava repetindo "brace yourselves, winter is coming" a cada nova informação que a professora dava.

***

Todo mundo fuma maconha aqui (menos eu, pai e mãe). Ok, eu sei que todo mundo fuma maconha no mundo inteiro. A diferença é que aqui ninguém liga. O povo fica fumando na rua, na frente das lojas, e no ponto de ônibus enquanto espera. Aí o vento leva todo o cheiro da maconha na sua cara, e nas suas roupas, mas não tem problema, porque ninguém liga.

***

Minha latinha de cogumelo do Super Mario, que vem com balas sabor maçã verde:


Que ternura, né? $3,99 + taxas. Aceito encomendas.

Tuesday, November 22, 2011

Oh Canada ♪

Depois de mais de dois meses, eu volto aqui pra avisar que estou morando em Montreal. Vou passar meio ano aqui, no frio, estudando francês. Meu próximo verão será só em dezembro de 2012 (se o mundo não acabar).

Minhas primeiras impressões de Montreal são ótimas. A cidade é toda organizada, as pessoas são super educadas, e o sistema de transporte público funciona muito bem. Não é impossível, viu, Florianópolis? Aqui você paga (meio caro, é verdade) por um determinado número de semanas, ou pelo mês todo, e tem um cartão que pode usar no ônibus e no metrô, quantas vezes por dia você quiser. No fim das contas, é mais barato e prático do que ficar pagando passagem por passagem, e facilita muito pra quem quer explorar a cidade e visitar vários lugares no mesmo dia.

A vista super canadense que eu tenho do meu quarto.
A faculdade Notre Dame, vista do santuário de São José.
As coisas que mais me chocaram aqui foram que os ônibus não têm catraca, e as pessoas entram em fila, por ordem de chegada no ponto; que os carros não têm placa na frente, só atrás; e que troco de um centavo é troco de um centavo mesmo. Nada de balinha.

Montreal é uma cidade linda, cheia de esquilos, de turistas, e de estudantes estrangeiros. Acho que eu vou voltar pro Brasil falando francês, inglês, e português com sotaque espanhol, de tanto mexicano, colombiano e venezuelano que tem por aqui.

Faz só uma semana que cheguei, mas já me adaptei bem. É frio. Muito frio. E o inverno nem começou ainda. Já nevou um pouquinho um dia, mas isso não é nada, comparado ao inverno de -25ºC de Montreal. Por enquanto, nessas de -5º com sensação térmica de -11º, eu estou aguentando bem. Difícil é entrar no metrô, ou na escola, e ser recebida por uma temperatura de mais de 25ºC. Não deve fazer bem esse negócio de sair do gelo e entrar no forno. Se no Brasil eu aprendi a sempre levar um casaco, porque alguém vai ligar o ar condicionado em 13ºC no verão, em Montreal eu já aprendi a andar sempre com uma camiseta por baixo das mil blusas e casacos. Alguém vai ligar a calefação em quase 30ºC. Encontrem um meio termo, gente.


Depois de uma semana de quatro horas de aula de francês por dia, e provas na quinta-feira, no domingo eu fui pra Ottawa com uma turma que conheci aqui na escola. Ottawa é uma graça de cidade, cheia de construções velhas e bonitas.

Ottawa.
Nós visitamos a casa do governador, o prédio do parlamento, e o Museu Canadense da Civilização, que é um lugar imenso cheio de coisas interessantes. Tem uma réplica de como era uma cidade no Canadá de 1800, e dá pra entrar nas lojas, na escola, nas casas. É tudo bonito.

Parlamento.
Réplicas das construções antigas do Canadá

Mas na verdade eu escrevi tudo isso aí em cima pra dar o contexto, e poder compartilhar essas próximas linhas com o mundo:

Logo que eu entrei no museu e peguei um mapa do lugar, tive uma crise de riso meio duvidosa. Imaginem qual não foi minha surpresa ao abrir o mapa e dar de cara com esse formato, hm, peculiar do museu:

Sou só eu, ou...?
Cada um interpreta como quiser.

Wednesday, September 14, 2011

Ciclo sem fim.

Ao todo, vi O Rei Leão no cinema cinco vezes: uma em 1994, e quatro em 2011. Sim, quatro. Numa sexta-feira, depois na terça, na quarta, e na segunda-feira seguinte.

Admito que tenho problemas, e que, como bem disse minha professora de francês, na verdade uma parte de mim não cresceu. Mas, gente. O Rei Leão no cinema. Meu filme preferido de todos os tempos da humanidade no universo, de volta ao cinema depois de 17 anos. E o fato de ser em 3D, apesar de totalmente desnecessário ao longo da animação, deixou a abertura ainda mais linda e emocionante.


Eu decorei todas as falas. Todas as entonações, todos os detalhes. Devo ter assistido ao filme mais de duzentas vezes ao longo dos últimos 17 anos, sem brincadeira. Cheguei ao cúmulo do meu forever alone way of life aos 12 anos, quando via O Rei Leão uma vez por dia. Eu cito frases do filme em praticamente todas as situações da vida. Chego a ser insuportável, com meus "perdoe-me por não pular de alegria, mas minhas costas doem" e "eu estou cercado de idiotas".

Minha cena preferida de todas.

O que ficou engraçado nessa exibição no cinema foi que no meio da música Hakuna Matata o Timão solta um "ei, Pumba, na frente das crianças, não". E aí você olha para os lados e só vê um bando de marmanjos nostálgicos de vinte e poucos anos, que dez minutos atrás estavam fungando e tentando esconder o choro na cena da morte do Mufasa.

Foi muito importante e significativo para mim poder rever o filme no cinema. Me emocionei, dei risada, fiquei triste, assustada, encantada, arrepiada, tudo como se fosse a primeira vez que eu assistia - isso nas quatro vezes que fui.

E se alguém me convidar pra ir mais uma vez, eu juro que vou.

Sunday, August 14, 2011

Óculos.

Meu primo de quatro anos foi ao McDonald's uns dias atrás. O brinde que ele escolheu foi o smurf Gênio:


Estranhei um pouco, porque ele ainda não tinha nenhum dos brinquedos e optou pelo smurf de óculos.

- Foi você que escolheu esse smurf?
- Aham.
- Por que esse?
- Porque eu vou ser pai um dia.

Segundos de silêncio.
Geralmente eu entendo a lógica infantil sem muito esforço, porque, convenhamos, eu tenho a idade mental de uma criança. Mas dessa vez foi além da minha capacidade.

Percebendo o ponto de interrogação que se formava na minha cara, meu primo explicou, com certa impaciência:

- Pais usam óculos.

É verdade. Mesmo que seja só pra ler, quando o comprimento do braço não é o suficiente para afastar o papel, pais usam óculos.


Feliz dia dos pais para o meu pai, que deveria estar usando seus óculos enquanto lê esse texto no meu blog. Caso não esteja, uso letras maiores: eu amo você.

Thursday, July 14, 2011

Delírios de um pai sedado.

Eu sumi um pouco do blog, de novo, porque duas semanas atrás meu pai foi parar no hospital. Ele teve crises renais quando uma pedrinha de cinco milímetros no rim dele resolveu dar sinal de vida. Depois de uma semana de procedimentos, remoções de pedras que não deram certo e muita dor, na quinta-feira meu pai foi até a clínica pra explodir o último fragmento de pedra.

Não sei qual tipo de sedativo deram pra ele. Só sei que após o tal procedimento presenciei uma hora de delírios e diálogos nonsense, que eu, como boa filha que sou, anotei pra contar pra todo mundo e fazer piadas no futuro.

- Quem é aquele?
- É o soro que você tá tomando, pai.
- Mas não tá na minha boca.
- Não, tá na sua veia.
- Ele tem um chapeuzinho.

♦♦♦♦♦

- Eu tô vivo?
- Tá, mas tá delirando.
- Me deram maconha?
- Olha, tá parecendo.
- Mas não tá cheirando cocaína aqui.
- É porque eles não te deram cocaína.

♦♦♦♦♦

- Aqui é a Sapopemba?
- Não, aqui é a Ultralitho, na Rio Branco, em Florianópolis.
- Não é em São Paulo?
- Não, pai.
- E você foi jogar bilhar?
- Não, hoje não.

♦♦♦♦♦

- Ali naquela porta vai pro aeroporto?
- Não, ali vai pra sala de cirurgia.

♦♦♦♦♦

- O chico já limpou a placenta?
- O que, pai?
- A placenta do bebê que nasceu.

♦♦♦♦♦

- O Rodrigo foi embora?
- Quem, pai?
- O Rodrigo.
- Não sei quem é Rodrigo, pai.
- Nem eu.
- ...
- Ele não veio?
- Quem, o Rodrigo?
- É.
- Não, pai, não veio.

♦♦♦♦♦

- Os paparazzi já saíram?

♦♦♦♦♦

- Meu armário é o número nove, onde eu guardei meu charuto e o meu picolé.

♦♦♦♦♦

 - Eu tô de paletó?

♦♦♦♦♦

- Olha, tem formigas.

♦♦♦♦♦

- Cadê meu picolé?

♦♦♦♦♦

- O médico tava assobiando.
- É?
- Jazz.
- E tava bom?
- Não era jazz.
- O que era?
- “A noite do meu amor”.



Se algum dia me sedarem, não quero ninguém por perto.

Wednesday, July 13, 2011

I'm a terrible person.

Estava passeando pela internet e me deparei com aquele tal caça-palavras psicológico: segundo os especialistas (adolescentes no tumblr), as primeiras três palavras que você encontrar definem sua personalidade.


Ok.


Minhas três primeiras palavras: inveja, preguiça e malícia.
Tem que ver isso aí.


Ps. Quase todo mundo diz que achou "amor". Estou olhando aquelas letrinhas ali desde ontem e não consegui encontrar ainda. Então talvez funcione mesmo esse negócio.

Tuesday, June 14, 2011

My precious.

Monday, June 13, 2011

Meu relacionamento com A Banda Mais Bonita da Cidade:

Dia 1: Ai gente, que lindo esse vídeo e essa música. Olha só!

Dia 2: Oun, gracinha.

Dia 3: Ok, agora todo mundo já viu, né?

Dia 4: Que legais essas paródias de Oração, haha.

Dia 5: Agora chega de paródias, né? Vão fazer suas próprias músicas.

Dia 6:  Meu amor essa é a última oração pra salvar seu coração, coração não é tão simples quanto pensa, nele cabe o que não cabe na despensa, cabe o meu amor, cabem três vidas inteiras, cabe uma penteadeira, cabe nós dois, cabe até o meu amor, essa é a última oração pra salvar seu coração, coração não é tão simples quanto pensa, nele cabe o que não cabe na despensa, cabe o meu amor, cabem três vidas inteiras, cabe uma penteadeira, cabe nós dois, cabe até o meu amor, essa é a última oração pra salvar seu coração, coração não é tão simples quanto pensa, nele cabe o que não cabe na despensa, cabe o meu amor, cabem três vidas inteiras, cabe uma penteadeira, cabe nós dois, cabe até o meu amor, essa é a última oração etc etc etc (em loop no cérebro por sete horas seguidas).

Dia 7: Estou lendo minha timeline no twitter, pensando em várias coisas diferentes, até que alguém a cita. Ela, a penteadeira. E eis que o Dia 6 se repete.

Dia 8: Idem ao Dia 7.

Dia 9: Idem ao Dia 8.

Dia 10, Dia 11, Dia 12: Idem aos dias anteriores.

Dia 13, Dia 14: NÃO AGÜENTO MAIS, ESTOU FICANDO MALUCA, PRECISO DE AJUDA, SAAAAAI DA MINHA CABEÇA.

Dia 15, Dia 16, Dia 17: Relativa calmaria. Uma pessoa ou outra ainda cita a despensa, mas não tem o mesmo efeito da penteadeira.

Dias atuais: Estou bem, superei. Recuperei minha sanidade, não tenho mais medo de abrir o twitter. Mas não vem me falar de penteadeira que eu surto.

Sunday, June 12, 2011

Post orgânico.

Até o final do ano passado, meu único contato com comida verdadeiramente natureba consistia nas minhas idas esporádicas ao Empório Natureba dois anos atrás, aquele lugar que cheira a gengibre com anis. Mas aí, depois do diagnóstico da minha mãe, minha casa virou um Lar Natureba.

Digo, sempre fomos pessoas relativamente saudáveis: nunca abusamos de frituras; frutas, verduras e cereais sempre fizeram parte da alimentação. Quando morávamos em Joaçaba, antes de vir pra Florianópolis, meu pai tinha uma horta imensa e bastante produtiva, e passávamos meses e mais meses comendo pepino. Muito pepino.

Apesar disso, fui uma criança feliz desfrutando os prazeres do chocolate, do refrigerante, da pizza, da pipoca e da batata frita. E vivia assim, nesse equilíbrio entre o natural e o gostoso (com a sorte de ter sido abençoada com um metabolismo rápido).

Mas quando uma pessoa na sua família mais próxima está com câncer, os costumes mudam. A rotina muda. As prioridades mudam. A vontade de mandar todo mundo parar de reclamar de besteira e calar a boca porque é tudo frescura aumenta. A vontade de reclamar de besteira aumenta também. Os tópicos de conversa durante o almoço mudam. E, sim, a alimentação muda.

Existe uma linha divisória imaginária entre o natural e o natureba. Comer arroz integral, alface, brócolis, tomate, peixe, laranja, manga, ameixa, faz de você uma pessoa natural. Comer quinoa, feijão azuki, frango orgânico, couve de bruxelas, carne de soja, passar geléia de mirtilo no pão integral de 18595638 grãos, usar açúcar demerara e xarope de agave, tomar suco de laranja com carambola e kiwi e beterraba e cenoura e couve, tudo orgânico e com uma pitada de gengibre, faz de você uma pessoa natureba.

Eu tento manter aquele antigo equilíbrio, agora entre o gostoso, o natural e o natureba. Batalhei pra poder usar açúcar cristal branco em casa, não me rendi ao pão integral, e continuo achando que gengibre só devia ser usado como castigo de crianças muito, muito más. Tipo "senta aí e masca esse gengibre enquanto pensa no que fez". As crianças seriam todas boazinhas. Mas esses dias percebi que gosto mais de quinoa do que de arroz, e que, por escolha própria, meu lanche da tarde eram umas bolachinhas de leite com aveia e de mel com cacau, e não pipoca ou chocolate, e que eu estava tomando chá, e não refrigerante.

Socorro.

Alguém me dá Sprite e uma barra de Diamante Negro, por favor.

Monday, June 06, 2011

Coisa linda de Deus:


Um tempo atrás a Brandi Carlile disse no facebook que tinha autografado tantas centenas (mais de mil) de encartes de cd, que machucou a mão e ligaram pra ela do banco pra perguntar por que a assinatura dela estava diferente nos últimos cheques.
Bom, hoje chegou minha pequena contribuição para o machucado: o Brandi Carlile Live at Benaroya Hall with the Seattle Symphony, autografado. E a camiseta. Demorou um mês pra chegar, mas estou encantada.

O cd foi gravado durante dois shows, nos dias 19 e 21 de novembro do ano passado. A Brandi disse que a maioria das músicas escolhidas foram do primeiro show. Isso porque no dia 20 os membros da banda detonaram suas cordas vocais fazendo covers dos Ramones.

Aliás, cover é o que não falta nesse cd ao vivo. São quatro: Sixty Years On, do Elton John; The Sound of Silence, do Paul Simon, que os gêmeos Tim e Phil Hanseroth, guitarrista e baixista da Brandi, cantam sozinhos; Hallelujah, do Leonard Cohen; e Forever Young, uma hidden-track não tão hidden assim, do Alphaville.

As outras faixas são originais da Brandi e dos gêmeos: Looking Out, Before it Breaks, I Will, Shadow on the Wall, Dreams, Turpentine, The Story e Pride and Joy. Todas essas músicas são acompanhadas por uma orquestra de 30 pessoas, a Seattle Symphony. 

Eu, fã de tudo que a Brandi Carlile faz, e fã de música clássica, não poderia estar mais feliz.


Uma das minhas faixas preferidas do álbum, Shadow On The Wall:

Thursday, June 02, 2011

Lógica de criança.

Minha prima, agora com dois anos e nove meses (a mesma do coelhinho pobre), estava aqui em casa esses dias, e me convocou para brincar no chão da sala. Na brincadeira, ela era uma médica receitando remédios para a boneca e para mim. Cada remédio tinha um nome, que ela inventava na hora, juntando sílabas aleatórias que não tinham semelhança nenhuma com palavras de verdade. Ou seja, mais ou menos como os remédios são mesmo.
Entre explicações de quais medicamentos a minha filha - a boneca - deveria tomar, caso tivesse dor de barriga ou de garganta, ela soltou essa:

- Esse remédio aqui é pra criança tomar e crescer bem forte. E esse outro é pra adulto tomar e ficar pequenininho.

Tuesday, May 31, 2011

Dicas de moda, Allie Moss, e meu subconsciente perturbado.

Eu lavava a louça da janta. Minha mãe entrou na cozinha, resmungando sons estranhos que eram pra ser os primeiros versos de I Will, da Brandi Carlile, e fazendo um tipo de dança meio indígena.
Olhei pra ela, perplexa, enquanto ela continuava com seu, hm, ritual.

- Mãe, isso é a coisa mais ridícula que eu já vi.

Ela olhou pra mim:

- Ridícula tá você.

Era verdade.
Minha roupa era inexplicável. Da cintura pra baixo, eu estava de pijama: um bermudão de tecido até a canela, listrado, azul e cinza, e com um detalhe em vermelho na cintura; meias brancas e polainas, também listradas, em azul e branco. Estava frio. Da cintura pra cima, ainda não tinha trocado de roupa. Vestia uma blusa branca de gola alta, uma camisa xadrez azul e branca, e um casaco preto por cima.
Como eu disse, inexplicável.

***

A Allie Moss, cantora que gosto muito, me respondeu no twitter e disse "happy birthday, a little early".
É muita ternura em mim.
Como essa já é a quarta vez que ela fala comigo, me sinto no direito de dizer que ela é minha amiga. Minha amiga Allie Moss.

***

Meu pai está com o cérebro cansado e anda dizendo coisas do tipo "fritar água" e "cozinhar roupas". Eu, hein. Mas é divertido tentar interpretar o que ele diz.

***

Noite dessas tive o pesadelo mais metalingüístico da história: no pesadelo, eu estava dormindo e tendo vários pesadelos. Tinha a Bel Número 1, que sou eu mesma de carne e osso e estava dormindo na realidade. Bel 1 sonhava com a Bel Número 2, que, por sua (ou minha) vez, não estava conseguindo dormir direito dentro do sonho, porque cada vez que pegava no sono tinha um pesadelo diferente. Nesses pesadelos, a Bel Número 3 passava por umas situações bem ruins.
Não sei se me fiz entender. Provavelmente não.
De qualquer forma, em um dos sub-pesadelos da Bel 2, a Bel 3 estava sendo assaltada. Em outro, ela assistia a uma briga muito violenta que ia resultar em morte. Em outro ainda, a Bel 3 desaprendia a ler. Acho que esse foi o pior.
Eu, Bel 1, acordei tão cansada.

***

Vocês precisam ver minha mãe tentando falar "you will". É tipo a mulher do iutubiu, sério mesmo. Ela tenta falar, não consegue, e tem crise de riso. Pena que eu não tinha uma câmera pra filmar na hora.

Wednesday, May 18, 2011

Bonus track do post anterior.

Fui a uma janta com a minha mãe e os colegas de trabalho dela. Um buffet de sopas. Minha mãe não foi a única funcionária a levar filho junto.
Alguns dias depois, fiquei sabendo que um dos filhos que estavam lá perguntou à mãe dele, interessado:

- Mãe, quem era aquela moça sentada no outro lado da mesa?

A moça era eu.
O moço, segundo consta, gosta de meninas mais velhas.
Ele achou que eu tinha 14 anos.
Ele tem 11 anos.

Monday, May 09, 2011

O curioso caso.

Academia. Uma mulher se aproxima de mim.

- A pequetita tá levantando peso? - diz, com aquele tom besta de adulto de falar com crianças.
- Eu tenho 21 anos.
- O quê?? Pensei que você tinha 12!
- Não, 21.
- Nossa, minha filha tem 13 anos e parece mais velha que você. É que ela tem um corpo lindo. Não que o seu não seja bom assim também, claro - apressa-se em dizer.

É. Claro.

***

Entro em uma loja de artigos pra artesanato e escolho um tecido. Uso para decorar porta-retrato. A vendedora olha para mim e pergunta:

- É pra um trabalho de escola?

***

Durante uma consulta, a oftalmologista diz à minha mãe que, quando for fazer os exames de vista, precisará de alguém para dirigir na volta. Vira pra mim e comenta, sorrindo:

- Aí não vai poder ser você a companhia dela no exame.
- Na verdade, posso sim.

Vendo o olhar interrogativo dela, completo: 

- Eu tenho 21 anos.
- Não.
- Tenho.
- Mentira.
- Verdade.
- Menina, eu achei que você tinha 11 anos!

11. ONZE.

Quase três anos atrás, neste post, com 19 anos, as pessoas achavam que eu tinha 14. Agora, chegando aos 22, três anos a mais no papel, três anos a menos na aparência.

Prazer, sou Benjamin Button.

Nicole diz:


- Olha, gente! Tenho um brinquedo novo!

Saturday, April 30, 2011

O homem do ponto.

Está sentado no ponto de ônibus. É daquelas pessoas que aparentam ter uns 80 anos, mas 20 desses acabam sendo só o peso da vida difícil. A pele, negra, está descascada.

Ele cheira mal.

Usa um moletom que há muito tempo deve ter sido branco, e agora só tem cor de sujeira. A calça jeans está desbotada. No pé esquerdo, um chinelo gasto. O outro pé está descalço, e o chinelo está deixado de lado, no chão. Ele não tem o quinto dedo do pé direito. Mas já teve os cinco. A cicatriz está ali.

Na cabeça, um boné que cobre boa parte do seu rosto. De vez em quando me olha, sem expressão, escondendo os olhos na sombra do boné. Sua barba e seu cabelo parecem ser uma coisa só: encaracolados, curtos e grisalhos. Os lábios estão acomodados de uma forma que faz com que ele pareça uma criança emburrada.

Tem um cigarro na mão esquerda, e uma caixa de fósforos na direita. Por algum motivo, resolve não fumar. Guarda o cigarro – que parece ser o único que tem – no bolso traseiro da calça, junto com os fósforos.

Fica olhando em frente, com seu campo de visão limitado pelo boné.
Imóvel.

O ônibus chega ao ponto. Eu embarco, ele não. E continua lá, sentado, enquanto eu vou embora.

Thursday, April 28, 2011

Olha, mãe! Também fui eu que fiz.

Pacman.
Bolinhas não-temáticas.
A menina que roubava livros.
Caixinha do Super Mario. Trabalho pra caramba.

Monday, April 25, 2011

Percepção de uma mini-capitalista.

Minha prima de dois anos e sete meses me mostra sua cesta de páscoa e comenta sobre o conteúdo:

- Esse ovo é do Backyardigans. O papai deu dinheiro pro coelhinho, daí o coelhinho foi lá e comprou e trouxe pra mim.


A vida não tá fácil nem pro coelho.

Thursday, April 21, 2011

Big mother is watching you

Comentário no post Antes e depois:


Minha mãe, senhoras e senhores.

Sim, agora ela lê o blog.


Hoje de manhã, quando levantei e cheguei à cozinha, ela me recebeu com um simpático "filha, que bom te ver!".
Ou seja, vou passar o dia todo apreensiva porque ela deve estar planejando alguma coisa cruel. Ou vai me pedir algum favor. Ou ela simplesmente não me ama mais. Porque uma coisa que eu aprendi nesses meus quase 22 anos de vida é que a maior demonstração de carinho da minha mãe é quando ela diz "eu não gosto mais de você".

Monday, April 18, 2011

Sobre as melhores coisas da vida

Eu ia escrever, mas achei que fazendo um gráfico eu ilustraria melhor o que quero dizer:


Pausa para reflexão.

Friday, April 15, 2011

Antes e depois.

Quem me tem adicionada no Facebook ou no Orkut já deve ter visto estas fotos. Mas eu gosto tanto delas, e de ter feito meus primos colaborarem comigo nesse remake de fotos antigas, que resolvi postar aqui também:

Detalhe para o fato de que vinte anos depois eu ainda não consigo pegar minha prima no colo.


Noções de moda um pouquinho melhores.
Aprendi a sentar como uma menina. E aí parei de usar vestidos.
É, a gente se gosta muito mais hoje em dia.


Thursday, April 14, 2011

Entendimento peculiar

Cena: minha mãe e eu conversamos sobre música, enquanto eu mostro algumas bandas pra ela.

Diálogo original:

Mãe: Ah, essa música é daquela banda que é parecida com a outra das músicas de viagem?
Eu: Não. Essa é uma parecida com a que é parecida com a outra de viagem.

Começa outra música.

Mãe: E essa é aquela banda dos "aah aaahs"?
Eu: Não, essa é outra parecida com a dos "ah ahs".

---

Tradução:

Mãe: Ah, essa música é do Beirut, parecido com Devotchka?
Eu: Não, essa é do Fanfarlo.

Mãe: E essa é Mumford & Sons?
Eu: Não, essa é Noah and the Whale.

---

Beirut | Devotchka | Fanfarlo | Mumford & Sons | Noah and the Whale

Todas ótimas bandas. E metade delas, dica da Alessandra.

Time's up.

Confesso que eu nunca tinha entendido direito por que as pessoas viviam dizendo que precisavam de "um tempo". Dar um tempo sempre pareceu ser a solução de todos os problemas de todo mundo, reais ou da ficção, e eu não conseguia me identificar com essa necessidade. Um ou dois dias pra pensar e processar informações, claro. Mas não aquele tempo indeterminado.

Só que aí, nestes últimos meses, minha mãe descobriu que estava com câncer, que era maligno, que já tinha metástases, que não podia operar, que tinha que começar quimioterapia imediatamente. Aí eu cancelei temporariamente minha viagem para o Canadá, que estava toda organizada, e fiquei em casa com ela. Isso pouco depois de ter terminado um relacionamento de quase dois anos. E minha mãe começou a quimioterapia, e ficou careca, e passou mal, e teve que mudar todos os hábitos alimentares, e teve que começar uma luta contra a insistente queda de imunidade. 

E ela está ali, firme e forte, na metade do tratamento. E mais chata e implicante do que nunca, dando muito material pra este blog.

Mas eu não postei nada.

Porque pela primeira vez na vida precisei de um tempo.
E entendi que às vezes as coisas são mais do que as pessoas conseguem lidar imediatamente.

Foram cinco meses de tempo. Mas agora chega. O tempo já fez o que tinha que fazer, e eu voltei.

---

- Mãe, voltei a postar no blog, sabia?
- Nossa, é? Depois de tantos meses...
- É. E isso significa que agora tudo que você falar vai parar na internet de novo.

Wednesday, April 13, 2011

Dia 10 (finalmente): Menções honrosas

Nesta série de posts, muitos livros bons acabaram ficando de fora. Por isso resolvi terminar citando mais alguns que me marcaram de alguma forma:

O Sol é Para Todos: É um livro lindo com uma história tocante, escrita por Harper Lee em 1960. Trata da injustiça racial e do preconceito, se passa numa pequena cidade rural do sul dos Estados Unidos, e é narrada por uma criança. Os personagens são marcantes, daqueles que acabam fazendo parte da sua vida depois. O livro ganhou o prêmio Pulitzer, e a adaptação para o cinema é considerada um clássico. Se eu tivesse feito o post "livro que mais recomendo", que estava na idéia original dos dez posts, teria indicado essa obra.

O Caso do Olho de Vidro: Romance policial bem despretensioso, daqueles que servem pra distrair mesmo. O personagem principal é o advogado criminal Perry Mason, que protagonizou 86 dos quase 150 livros escritos por Erle Stanley Gardner (somando os livros que escreveu com sete pseudônimos diferentes). A leitura é leve e a história acaba sendo cômica. Ótimo entretenimento pra quem gosta de histórias de detetives.

Fama & Anonimato: O Gay Talese me deprime porque ele escreve tudo que eu queria e não sei escrever. O texto é impecável, e em 494 páginas parece que não tem nenhuma palavra sobrando ou fora de lugar. Eu achava que o melhor dele era ter escrito o perfil do Frank Sinatra sem falar com o Frank Sinatra, mas aí li o perfil de Nova York e fiquei maravilhada. E o melhor foi ter encontrado esse livro no sebo por R$ 15. Os livros do Gay Talese são muito caros em livrarias. E, pra ser justa, valem o que custam.

O Mistério do Cinco Estrelas:  Optei por este por ser o primeiro, mas poderia ter colocado aqui qualquer um dos 15 livros do Marcos Rey na Série Vagalume. Foi ele que me interessou por literatura quando eu tinha meus 10, 11 anos. As histórias eram cheias de suspense, mistério e assassinatos, e nada infantis. Leo, Ângela e Gino, protagonistas dos meus livros preferidos, fizeram parte da minha adolescência.

Autobiografia, da Agatha Christie: Pra mim esse livro foi um tipo de prêmio por ter lido quase todos os outros que ela escreveu (isso na época, porque agora já li todos, ou pelo menos tudo que foi publicado no Brasil). Ao ler a autobiografia pela primeira vez (já li três), fiquei com a impressão de ser amiga da Agatha, de estar sentada com ela tomando chá enquanto ela contava histórias antigas. A narrativa é de uma simplicidade agradável, e a Agatha não respeita muito a ordem cronológica, a não ser pelo fato de começar contando histórias aleatórias de sua infância. Ainda gosto de folhear o livro e ler qualquer trecho que apareça primeiro, porque todos são bons:
Adorava "problemas"! Apesar de serem somas disfarçadas, possuíam um encanto intrigante: "John tem cinco maçãs, George tem seis; se John tirar duas maçãs a George, quantas terá George no fim do dia?" E assim por diante. Hoje em dia, pensando nesses problemas, sinto uma vontade quase irreprimível de responder: "Depende do quanto George gosta de maçãs".
Agatha Christie, falando sobre seu gosto pela matemática na infância.


E assim, depois de muito tempo, finalmente termino a série de posts sobre livros.

Tuesday, April 12, 2011

Dia 9: Livro mais velho que eu tenho.

Quando eu era adolescente, lá pelos meus 13 anos, meu pai encontrou um livro que tinha sido do meu avô. É O Flagelo de Deus, do Maurice Leblanc. "Uma estupenda aventura de Arsène Lupin", o famoso personagem francês. 

Não é o livro mais velho que eu li, mas é o mais antigo que tenho. Essa edição é de 1958 (se é que eu interpretei corretamente os números romanos). Na internet, a obra consta como sendo de 1953, o que é um pouco estranho já que Maurice Leblanc morreu em 1941. Imagino então que essa data seja da publicação no Brasil. Curiosamente, não consegui encontrar a informação de quando o livro original foi escrito.

De qualquer forma, devo confessar que não lembro detalhes da história. Um dos motivos é que a minha memória é péssima. Outro, que naquela fase da vida eu não fazia nada além de ler, então as histórias foram todas se misturando na minha cabeça. E o terceiro motivo é que O Flagelo de Deus é a segunda parte de um outro livro, A Ilha dos Trinta Ataúdes, que eu nunca li. Tenho apenas algumas lembranças da história, e todas elas são referentes a maldições, mortes, demônios, feiticeiros e desgraças. Provavelmente por isso a obra me interessou, na verdade.

Meu avô paterno faleceu muitos anos antes de eu nascer. A única coisa que tenho dele é esse livro de páginas amareladas. E, para a minha sorte, uma anotação feita por ele no topo da primeira página:



Acho que eu teria gostado muito do meu avô.

Monday, April 11, 2011

Dia 8: Série de livros que eu mais gosto.

Trilogia Millennium, do Stieg Larsson.

São os melhores livros que eu já li na vida.
Com a melhor personagem que eu já conheci na literatura.
Eu nem deveria falar muito, porque virei fã demais dessa trilogia. Sabe quando o livro é tão bom que chega a dar um desespero? Pois então.

Comecei a ler Os Homens Que Não Amavam As Mulheres sem saber direito do que se tratava. Achei o título interessante, e o preço do livro quase novo no sebo, mais ainda. Três dias e 522 páginas depois, eu já estava pedindo desculpas à Agatha Christie por achar outro escritor melhor que ela.
Gostei ainda mais dos dois livros seguintes: A Menina Que Brincava Com Fogo e A Rainha Do Castelo De Ar. Eu precisava ler com um algodão molhado em água gelada pra aliviar a ardência nos olhos. Fechava um olho pra passar o algodão gelado, e continuava lendo com o outro olho.

Não foi uma época muito saudável.

Crimes sexuais, (muitos) assassinatos, tráfico de mulheres, segredos de Estado, jornalistas-detetives, hackers e muito suspense.


Fico brava porque não fui eu que escrevi, fico triste porque a Lisbeth Salander vive na ficção e eu aqui fora na realidade, mas principalmente fico revoltada porque o Larsson morreu logo depois de terminar os três livros, que seriam apenas os primeiros de uma série de dez. E agora o mundo precisa esperar a mulher do falecido lutar contra a família dele pelos direitos autorais, porque ela diz ter um manuscrito quase acabado do que seria o quarto livro, e pretende publicá-lo se ganhar na justiça. Então talvez o povo que está ficando maluco precisando de mais um pouquinho de Mikael e Lisbeth e conspirações e investigações e nomes suecos confusos (leia-se "eu"), tenha um último consolo.

Sunday, April 10, 2011

Dia 7: Primeiro livro que eu li.

Cinco meses depois...

Fiz umas poucas mudanças nesse meme (que acho que nem existe mais, depois de tanto tempo) pra ver se eu desempaco, supero logo esse negócio dos livros, e volto a postar direito aqui no blog.

Vamos lá.

O primeiro livro de verdade que eu li foi Sem Pé Nem Cabeça, do Pedro Bandeira. Não estou considerando livrinhos muito infantis, cheios de desenhos e vazios de palavras (nem gibis da Turma da Mônica). Um dos itens da lista de materiais da segunda série do primário era um livro, e foi esse que minha mãe comprou pra mim. Eu tinha seis anos.

Era uma história confusa, bem coerente com o título, sobre um menino que pensava, colocava os pensamentos no papel, criava coisas, e perdia o controle sobre as coisas depois que dava vida a elas.

Quando li esse livro pela primeira vez, nem imaginava que o Pedro Bandeira voltaria a me fazer companhia na adolescência, com os ótimos A Droga da Obediência, Pântano de Sangue, Anjo da Morte e A Droga do Amor, todos aventuras de detetive dos Karas, com títulos que meus pais não gostavam muito.

Ano passado dei meu exemplar de Sem Pé Nem Cabeça pra minha prima de seis anos. Me arrependo um pouco disso, porque cuidei muito bem do livro desde 1996, e não confio muito nela pra fazer o mesmo por mais uma década e meia. Mas espero que ela goste da história tanto quanto eu gostei.