Tuesday, December 03, 2013

Resumo da semana até agora:

- Duas internets da Tim que não funcionam;

- Um site da Tim que me manda ligar para o número "xxxx" para resolver o problema;

- Uma janela da cozinha quebrada pelo pedreiro reformando o apartamento de cima;

- Um pedaço de vidro que despencou oito andares e não matou ninguém só porque Deus existe;

- Duas goteiras na cozinha;

- Um pedreiro que esqueceu que tinha reformas para fazer no meu apartamento, e não veio;

E ainda é só terça-feira.

Friday, November 15, 2013

Pareço legal, mas...

- Usei a fonte Comic Sans no MSN;

- Tive uma fase indie em 2007;

- Gosto desta música;

- Uso a expressão "de boa" com frequência;

- ...bem como sua variante "de boas";

- Estou no nível 396 no Candy Crush.


Um pouco de autocrítica sempre faz bem.

Wednesday, November 13, 2013

Oz - A Saga


Caso alguém ainda não saiba, eu conheci minha melhor amiga pela internet há sete anos. Nós nos descobrimos por acaso, nos encontramos pessoalmente após um ano, e nossa amizade continuou ótima mesmo depois de eu descobrir que, na verdade, ela era um senhor de 67 anos se passando por uma jovem estudante nas redes sociais.
Tá, mentira. Ela era quem dizia ser, eu é que sou o senhorzinho.
Sete longos anos de amizade à distância depois, nós finalmente estamos morando na mesma cidade. E, como se isso não bastasse, no mesmo apartamento.

Hoje, lá no Tinha, mas esqueci (se você conhece a Thami, sabe que é o nome perfeito para um blog dela), ela contou o início da nossa saga para conseguir esse apartamento em São Paulo. Era uma história que eu queria contar, mas como ela já o fez muito bem, não vou conseguir escrever um texto diferente do dela, e por isso o reproduzo aqui.
Aí está:



Talvez essa semana complete 2 meses que eu mudei de casa. 
Dois meses que o meu tempo de leitura (modo como eu meço meu tempo no transporte público) diminuiu de 2 horas para apenas 30 minutos. 
Dois meses que planos pensados há cinco anos se concretizaram. 
Dois meses que eu divido apartamento com a minha melhor amiga que conheci na internet 7 anos atrás. Yay.
Dois meses que eu enrolo para dar início à saga maravilhosa de posts sobre como é minha vida agora que moro sozinha. Sozinha/acompanhada. Aliás, é estranho eu dizer que moro sozinha já que a Bel tá lá. 
Sempre que eu disser "sozinha" imaginem a Bel escondida lá no canto da narrativa. A menos que eu realmente queira dizer que estou sozinha fazendo algo. Enfim, deixemos isso de lado por enquanto.
 
Como eu ia dizendo, estou morando sozinha/acompanhada em São Paulo e vou tentar compartilhar com vocês alguns dos melhores e piores momentos dessa nova fase da minha vida. 

 

PARTE 1 - O APARTAMENTO (OZ, para os íntimos todos)
 
Para começar é preciso dizer que mudar para São Paulo foi uma decisão fácil de se tomar mas incrivelmente difícil de realizar. Exigiu esforço de um batalhão de gente para tentar encontrar um lugar decente para se morar. No começo você parte para essa empreitada cheio de exigências:
 
"Quero um apartamento que tenha varandinha, ia ser tão bonito colocar flores toda semana e tomar chá olhando para uma bela vista".
 
Mas aos poucos você cai na realidade quando começa a ver o preço dos imóveis:
 
"Não precisa ser uma varanda, pode ser só um lugar bacana com dois quartos."
"Pode ser um lugar com um quarto só, com cozinha e sala grandes pra gente receber pessoas"
"Pode ser só um cômodo com uma vizinhança segura"
"Pode ser um lugar que eu divida com 15 pessoas e que tenha moradores de rua legais que me protejam de noite."
 
Enfim, foi difícil e nós quase desistimos, mas depois de quase meio ano surgiu um lugar bacana no prédio de uma amiga e fomos visitar. Era incrível, depois de tantas porcarias que a gente tinha visto ver uma coisa bonitinha encheu nosso coração de esperança. Vizinhança ótima, pertíssimo do metrô!
Entramos, fizemos planos e decoramos mentalmente o apartamento. Pronto, era esse.

Era. Até a gente saber o preço do aluguel. 
Duraríamos exatos dois meses pagando esse aluguel e daí teríamos que ir pra rua cantar e tocar pandeiro.
Voltamos à estaca 1. Digo 1 porque havia uma esperança: a mesma amiga sabia de um apartamento na rua de trás, marcamos com o corretor e lá fomos nós.

Adoramos a vizinhança,  também fica perto do metrô (apesar de não ser tão perto como o anterior) e ainda tem aquelas luminárias gracinhas típicas do bairro da Liberdade. 





Era o lugar perfeito e nós estávamos tão cansadas de procurar (e também não dava mais pra enrolar porque a Bel já estava de mudança de Florianópolis pra cá e ia ter que morar na rua minha casa.)
 
Foi com esse argumento da Bel moradora de rua que amolecemos o coração do zelador do prédio após esperarmos quase 1 hora pelo corretor que NUNCA APARECEU. 
 
O zelador nos mostrou dois apartamentos que havia para alugar. Um era da irmã de uma das moradoras e era a coisa MAIS AZUL que eu já vi em toda minha vida. Era meio esquisito mas no desespero parecia um palácio no céu. Ou no fundo no mar. Ou em qualquer outra coisa muito azul que venha a sua cabeça. Íamos fechar com a imensidão azul mas resolvemos visitar o próximo.
 
Foi quando abrimos a porta do segundo apartamento que tudo mudou. Encontramos. Era lindo, tinha quarto, cozinha, sala, banheiro, sem moradores de rua, sem 15 pessoas e o principal: um valor pagável. 
A gente não precisaria vender órgãos ou fios de cabelo para pagar as contas! Fechamos na hora. 

É PERFEITO.

Tirando a parede completamente torta da sala que causa alguns transtornos porque daí tudo parece torto e daí fica...peculiar, mais ou menos assim:
 
 
E tirando também que a "lavanderia" tá invertida com a cozinha e aí não dá pra estender roupa. Fora isso é perfeito. 
Tirando que tem um canto vazio para nada que previamente está escalado para ser o "canto do castigo". Mas é perfeito.
Apesar de que o banheiro é em diagonal e não dá pra colocar o box porque o cara também inverteu a posição do assento sanitário. Mas juro, é perfeito.
 
É perfeito e é nosso.

QUE COMECEM AS AVENTURAS.

Nos próximos capítulos vocês verão: os personagens que habitam a Cidade das Esmeraldas (nosso prédio/bairro), O nosso embate com a Wicked Witch of West (moça da imobiliária), Xenofobismo, etc. NÃO PERCAM.

 

Thursday, November 07, 2013

Segurança em Santa Catarina

Eu saio de Santa Catarina por dois meses, e quando vejo isso aconteceu:

Daqui.

Nem vou comentar. É fácil demais.
Só vou abrir uma enquete:

Qual a sua parte preferida?
a) O título da notícia
b) A foto dos salgadinhos apreendidos tipo drogas e armas
c) O nome da operação policial.

Tuesday, November 05, 2013

Mãe,

Estou ouvindo agora uma música nova do Andrew Bird. Chama Pulaski at Night. Você iria adorar.

Meu primeiro impulso foi pensar em te mostrar a música. Meu primeiro impulso sempre é querer te mostrar algo que gosto muito ou que sei que você iria gostar. E aí todas as vezes que isso acontece é como se alguém jogasse água gelada em mim. Ou como se alguém me empurrasse de cara contra uma parede. Ou como se alguém conseguisse segurar meus órgãos dentro da minha barriga e chacoalhasse todos eles. Ou como se todas essas coisas acontecessem ao mesmo tempo.

Mas não se preocupe, é rápido. Logo depois desse momento horrível no qual lembro o motivo de eu não poder mais te mostrar alguma coisa, eu sempre checo: meus órgãos estão intactos, minha cara está ilesa, e eu estou seca.

Eu queria que você ouvisse essa música do Andrew Bird. E queria que você visse comigo os vídeos de um show que ele fez com uma moça esquisita. Também queria que você ouvisse o cd novo da Sara Bareilles. Seria seu preferido. Tem uma música, Chasing the Sun, que eu sei que você iria adorar porque ela canta uma nota aguda num momento em que primeiro você imagina que seria uma nota grave. E você ia dizer que gosta dessa música porque gosta de músicas que sobem.

Já saiu o novo Thor. Eu não queria ir assistir sem você. Por isso não fui ainda. Fui ver Gravidade, e gostei, mas acho que você não ia gostar. Ficaria agoniada. Queria comentar o final de Breaking Bad com você, mas você não viu nem o começo. E achei o início de temporada de Once Upon a Time tão chato que nem consegui ver. Parece que você não está perdendo muita coisa.

O que você está perdendo é a gracinha que o apartamento aqui em São Paulo está ficando. Tem móveis bonitinhos e decoração, que, lógico, eu estou fazendo. A Versão diz que eu ando meio incontrolável com meus artesanatos. Mas a decoração da festa de Halloween que a gente teve aqui ficou ótima. Espero que você veja daí de onde você está. Já é alguma coisa. Mas eu queria que você viesse aqui conhecer, comigo. Você só não gostaria de subir os oito andares de elevador. Mas sempre tem algum senhorzinho japonês engraçado junto para distrair. Ou alguma senhora estranha agarrando meu braço para mostrar como as mãos dela são geladas. Aí os oito andares passam rápido.

Mas, nossa, você ficaria muito brava com a situação da internet aqui. Ainda não conseguimos resolver o problema, e você estaria agoniada pra conversar via Skype, coisa que esse modem da Tim realmente não permite. Mas eu iria te ligar todos os dias. Você não imagina a saudade que eu sinto de ligar e ouvir sua voz. Acho que eu nunca falei, mas você tinha a minha voz preferida no mundo.

Fico achando que eu devia ter várias coisas bonitas e profundas que gostaria de te dizer. Mas eu só queria uma conversa normal. Só queria um momento normal daqueles só nossos. Só queria rir da palavra “exigente” com você, e não ter que explicar pra ninguém.

Meu curso vai bem, São Paulo vai bem.
E eu... vou. Espero também ir bem alguma hora.

Friday, August 09, 2013

Há 152 anos.

 Aí que em 1861 (mil oitocentos e sessenta e um, vejam bem), Dostoiévski publicava o seguinte desabafo:
De fato, julguem: sobre o que escrever? Chegou, por exemplo, Ristori [atriz dramática italiana que esteve em Petersburgo em 1860] e vejam só - tudo quanto é folhetinista começa a rabiscar a mesma coisa em todos os folhetins, em todos os jornais e revistas: Ristori, Ristori, Ristori chegou, Ristori vai representar; ela atua em Kamma, e logo em seguida Kamma, Kamma, qualquer que seja o jornal que se abra sempre aparece Kamma; ela está em Maria Stuart, e no mesmo instante Stuart, Stuart, etc. Assim as novidades irrompem uma atrás da outra! E o mais lamentável é que eles de fato imaginam que se trata de novidades. A gente pega um jornal, não tem vontade de ler: em toda parte é a mesma coisa, o desânimo se apodera do senhor, que apenas concorda que é preciso ser muito ladino, esperto, ter as mãos e o pensamento saturados de rotina para dizer ainda que seja a mesma coisa sobre a mesma coisa, mas dando um jeito de evitar as mesmas palavras. E os infelizes reviram a sua inteligenciazinha e amaldiçoam o seu destino. E quem sabe quantos dramas, até algo trágico, acontecem em algum canto úmido de um quinto andar, onde em um quarto se acomoda uma família inteira, com fome e frio, enquanto em outro um folhetinista treme em seu roupãozinho esfarrapado, escrevendo um folhetim à la Novo Poeta [pseudônimo de I. I. Panáiev (1812-1862), folhetinista famoso por suas paródias de vários escritores contemporâneos] sobre camélias [referência ao romance A dama das camélias (1848), que teve grande repercussão na Rússia, levando o termo "camélia" a entrar na moda em jornais e revistas], ostras e amigos, puxa os cabelos, arranha a pena e tudo isso num clima nada folhetinesco? (...) Será que o folhetim traz apenas uma lista das palpitantes novidades da cidade? Parece que se pode enforcar tudo com o próprio olhar, sedimentar com o próprio pensamento, dizer sua própria palavra, uma palavra nova. Mas, meu Deus! o que o senhor está dizendo! Uma palavra nova. Ora, por acaso é possível a gente dizer todo santo dia uma palavra nova, quando talvez passe a vida inteira sem consegui-la e, ao ouvi-la, ainda não a reconheça. "Sedimentar com o próprio pensamento", diz o senhor. Mas que pensamento, onde consegui-lo? Tente se afastar ao menos uma vírgula dos pensamentos do dono da revista e no mesmo instante ele o rejeitará e o dispensará. Pois bem, admitamos que até haja pensamento, mas a originalidade, mas a originalidade - onde consegui-la? Seja como for, a ideia não é sua. Para isso é preciso... sim, para isso é preciso inteligência, perspicácia, talento! O senhor está querendo exigir demais do nosso folhetinista! (...) A um rabiscador atual (tradução livre da palavra "folhetinista") nem passa pela cabeça que sem ardor, sem pensamento, sem ideias, sem vontade tudo vira rotina e repetição, repetição e rotina.

Gente, 1861.
Tirado do folhetim Sonhos de Petersburgo em verso e prosa, publicado no Brasil em 2012 pela Editora 34, no livro Dois Sonhos.

Monday, August 05, 2013

Don João

Não era uma manhã comum. Eu já havia passado as últimas 12 horas dentro de um ônibus, voltando de São Paulo para Florianópolis. Já tinha quase terminado a leitura de A Aldeia de Stepántchikovo e Seus Habitantes, do Dostoiévski, durante essa madrugada de 700 km de insônia – aparentemente superando meu trauma com o autor russo, 14 anos após minha primeira tentativa frustrada de ler um livro seu. Tinha também conhecido uma alemã perdida e solitária mochilando por Florianópolis, e saído do meu caminho para levá-la até um Hostel. Àquela hora da manhã, não fui capaz de acessar a área do meu cérebro que armazena as indicações de caminho, e não consegui pensar em alternativa melhor do que andar por 20 minutos com uma desconhecida.

Talvez fosse de se esperar que mais alguma coisa incomum ocorresse. Mas eu jamais teria antecipado os acontecimentos seguintes.

Eis que estou sentada no terminal, concentrada no livro, enquanto aguardo o horário do ônibus. De repente, vejo uma sombra cambaleante vindo em minha direção. Levanto os olhos e me deparo com um homem em seus quarenta e tantos anos, parecendo mais fora da realidade do que bêbado. Não tiro meus fones de ouvido, o que não o impede de se aproximar, me entregar um bilhete amassado num guardanapo de lanchonete, e de fazer algum comentário lisonjeiro sobre minha aparência.

(Pausa para recapitular que eu tinha acabado de passar as últimas 12 horas acordada numa viagem eterna de ônibus, e minha aparência estava de acordo com a situação, o que reforça minha impressão de que o homem cambaleante vive em outra realidade.)

Tento abrir o bilhete, mas o homem me pede para deixar para depois. E então, inesperadamente, ele começa a cantar. Não consigo identificar a música. Algo sobre olhos? Olhos do senhor? Ah, olhos do Senhor meu Deus. É uma música de igreja. E é longa, interminavelmente longa, com várias estrofes, as quais ele segue cantando.

Ele sabe todas as estrofes.

As pessoas em volta nos encaram. Eu tento novamente abrir o bilhete, e outra vez ele não deixa. E continua cantando. E me olha diretamente nos olhos. Quando finalmente termina de cantar, emenda: “gostou?”. Sem coragem de ser grosseira, respondo educadamente que é uma música bonita. Ele parece satisfeito com o resultado, e começa a se afastar. 

Volto a olhar o bilhete, que ele deixou em cima da minha mala. Quando estico a mão para pegá-lo, ouço: “EI!”, ele grita. “Se eu fosse você, deixava para ler em casa”. Aceno com a cabeça e deixo o bilhete no mesmo lugar. Abro meu livro, e escuto outra vez: “EI!”. Olho. Mais ao longe, ele me aconselha: “você precisa controlar mais a sua ansiedade”. Vira as costas e vai embora, me deixando sozinha com o bilhete:



* O número do celular dele foi censurado para evitar o assédio das fãs.

Tem carro, casa, emprego, é sábio, quer compromisso, é experiente, não tem medo de assumir seus sentimentos, canta, e além de tudo, tem atitude. Talvez eu devesse ligar, hein.

Saturday, July 21, 2012

Meus pequenos.


Não sei o que mais me faz amar vocês. Não sei se é a bagunça que fica no meu quarto quando vocês três me visitam. Não sei se é o barulho que vocês fazem, cada um querendo me contar uma coisa diferente na mesma hora. Não sei se são as letrinhas da sopa, que inexplicavelmente vão parar na escada da minha casa depois da janta.

*

Talvez seja a emoção de ouvir você me chamar de Bel pela primeira vez em um ano e meio, depois de eu passar um dia inteiro tentando te fazer falar. Pode ser o orgulho que sinto, disfarçado de cansaço, de saber que eu sou a pessoa que você escolhe para subir e descer as escadas de casa incontáveis e eternas vezes por dia. Talvez sejam as brincadeiras repetidas que te fazem rir cada vez mais, e o olhar de cumplicidade que você me dá quando só nós duas entendemos a graça de algum gesto que é um código não-verbal só nosso. Ou então a sua mania de olhar para a minha cara, e não para a câmera, quando eu quero tirar uma foto com você. E esse dedinho que você usa para apontar para mim e me cutucar... É, talvez seja isso.


*

Talvez seja a alegria de ver você começando a ler, a escrever, e a reclamar que nunca tem como saber se as palavras são acentuadas, se é com CH ou com X, ou se o S tem som de “ssss” ou de Z. Pode ser a identificação imediata que tive com você o dia que você me disse que se tivesse R$ 100, gastaria tudo na padaria e na locadora. Talvez seja essa sua cara esmagável, e o jeito que você me deixa te esmagar. É possível que seja o número de vezes que você me chamou de “MINHA Bel”, ou o fato de você dizer que sabe dançar hip hop. Ou então o jeito que você chama o Scar de “ininigo do Rei Leão”. Ou ainda quando você me pediu, preocupado, que eu não esquecesse de você quando eu fosse para o “Cadaná”. Na verdade, talvez seja absolutamente tudo que você diz:

     Sua irmã: "ISABEL ao contrário é LEBASI. Diz outra palavra pra eu inverter."
     Você: "Computador."
     Eu: "Era bem essa palavra que eu tava pensando."
     Você: "Acho que foi Deus que me disse o que você tava pensando no seu cérebro."


*

Talvez seja o fato de eu ter acompanhado o seu nascimento, seus primeiros passos, suas primeiras palavras, suas primeiras frases geniais. Pode ser porque, aos cinco anos, sua parte preferida de Procurando Nemo era aquela cena em que fica tudo escuro e a Dory pergunta “ô Consciência, eu morri?” para o Marlin. Talvez sejam as coreografias de dança que você costumava inventar. Ou, quem sabe, o seu gosto por música, a sua vontade insaciável de aprender, as inúmeras listas de palavras que você faz e me pede a tradução para o inglês. Talvez seja a sua independência, sua personalidade forte, seu senso de responsabilidade. Ou, ainda, os comentários que você faz enquanto vê Super Nanny, criticando os pais que não educam os filhos direito. É possível que seja porque agora, com quase 10 anos, você não me pede mais um papel para desenhar, mas sim que eu pinte as suas unhas. Acho que é porque enquanto pinto suas unhas, percebo que estou pensando em vocês três e implorando: por favor, não cresçam tão rápido.


Friday, June 29, 2012

No ônibus


Monday, June 25, 2012

À minha colega da pré-escola:

Eu não sei quem você é. Não sei seu nome, não tenho nenhuma lembrança real da sua existência. Mas todas as vezes que eu olhar esta nossa foto da festa junina de 1993 vou pensar em você, e me perguntar se você se deu bem na vida, apesar deste começo conturbado:


Vendo essa imagem, eu imagino que a sua vida não tenha sido tão fácil. Talvez você tenha tido uma mãe que não se importava muito com você, sempre ocupada demais com outras coisas para reparar em como você saía em público. Ou talvez uma irmã mais velha cruel, que se ressentiu com a sua chegada ao mundo e te odiava, até descobrir que você seria um ótimo brinquedo vivo. Ou, quem sabe, um pai viúvo que sempre fazia o melhor possível, mas deixava a desejar quando as situações do dia-a-dia requeriam algum conhecimento feminino. Pode ser que seus pais tivessem o costume de largar você na casa da sua avó, e que ela te amasse demais para te dizer que não, sua maquiagem não estava bonita.
Ou você era a filha do meio.

Eu espero sinceramente que você tenha superado. Que o seu psicólogo tenha te ajudado a ser feliz sem a atenção da sua mãe. Que você tenha conseguido se vingar da sua irmã mais velha, entrando no quarto dela, mexendo em todas as coisas, e sendo insuportável quando ela começou a namorar. Que tenha encontrado uma figura materna para te guiar na vida, porque ser mulher não é fácil, e percebido ainda cedo que a casa da sua avó, aquele ambiente tão cheio de amor, carinho, alegria, tolerância e compreensão, é completamente diferente do mundo real.
Ou que você não fosse a filha do meio.

Enfim, eu espero que você seja uma pessoa feliz.